As Irmãs de Gion e Elegia de Ozaka: uma visão crítica da mulher na sociedade japonesa

Recentemente tive a oportunidade de conferir duas belas obras de um de meus diretores nipônicos favoritos: Kenji Mizoguchi. O consagrado realizador de Intendente Sanshô e Oharu- A Vida de uma Cortesã produziu em 1936 dois grandes filmes que merecem ser redescobertos: As Irmãs de Gion e Elegia de Osaka.

Antes de escrever sobre tais obras, vale à pena recorrer à situação em que se encontrava o país onde elas foram realizadas e a relação com seu conteúdo. Estamos falando do Japão nos anos 30 – alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial -, que vivia um extremo militarismo e aflorado nacionalismo, este sinalizando uma extrema valorização de valores tradicionais e de tudo que se referia à identidade nacional. Nesse sentido, tratar numa visão critica valores que regiam tal sociedade pareciam inconcebíveis, mas é justamente com este momento histórico que tais obras cinematográficas se defrontam. Kenji Mizoguchi sempre exibiu nas telas uma visão bem pessimista da profissão de gueixa, por exemplo, que facilmente é lembrada como símbolo cultural do Japão. Mas resumir-se a isso é um grave problema. Mizoguchi procura no rosto de seus personagens interpretações realistas e frias, o que já o diferencia diante de boa parte das produções cinematográficas da época, que priorizavam atuações teatrais. Os ambientes em que os personagens se situam também são frios, escuros e extremamente melancólicos. A visão que Mizoguchi nos passa já é a de um Japão que defronta o moderno com o tradicional (fato que será bastante tratado nos diretores do pós-guerra), em meio às luzes dos edifícios comercias e às velhas casas de gueixas espalhadas no submundo das grandes cidades.

Em As Irmãs de Gion, Mizoguchi nos conta a vida de duas irmãs que vivem da profissão de gueixa, mas que possuem personalidades bem diferentes: uma tem fortes convicções feministas e procura se dar bem sobre todos os homens com que se relaciona, enquanto sua irmã, que possui fama de boa moça, é disputada por ricos da região. No desenrolar da película, o que mais me impressionou foi a facilidade com que o diretor muda rapidamente nossa visão do vilão e do mocinho. Logo são os homens, com seu egoísmo e violência, que transformam as irmãs em vitimas, ainda que a trama se concentre na conspiração armada por uma das irmãs. Esta, certa altura, termina numa cama de hospital dizendo: – “Por que o mundo necessita desta profissão? Desejaria que isso não existisse!”. É uma verdadeira declaração de protesto do realizador sobre a sociedade machista japonesa. Tudo é filmado de forma lenta, melancólica, procurando dar ênfase nos cenários internos, dentro do comércio ou das casas noturnas.

Em Elegia de Osaka o diretor ainda é mais radical, pois dialoga frente a frente com a prostituição forçada pela condição social. Já não é apenas a sociedade machista que importa, mas a organização social do estado que está em jogo. Como dito no inicio do texto, o Japão vivia um forte crescimento e modernização das grandes cidades, enquanto o estado investia pesado numa militarização da sociedade. Neste contexto, uma mulher que trabalha como telefonista numa empresa se apaixona por um dos funcionários e passa a ser desejada por seu chefe. Pela dura condição financeira de seu pai e de sua irmã mais nova, é obrigada a se prostituir para seu chefe e a viver financeiramente de tal forma. Passa, então, a ser rejeitada pela sua própria família por causa de sua condição, agora chamada de delinqüência. Mais uma vez, Mizoguchi nos brinda com uma frase dita pela protagonista: – “É um tipo de enfermidade. Chama-se delinqüência.” Nessa obra o diretor nos direciona para um mundo noturno, com todos seus vícios e luxos. O noturno passa a se tornar tenebroso pela condição dos indivíduos e, principalmente, da protagonista. Todos se tornam insensíveis e agressivos, numa cidade duramente divida entre riqueza e pobreza. Ainda que se foque mais nos espaços internos, Mizoguchi também dá ênfase aos espaços externos, mostrando a vida noturna fora dos estabelecimentos e grande movimento de automóveis para demonstrar um Japão já corroído pelos vícios do mundo capitalista ocidental.

O fato é que ambas as obras demonstram a fantástica capacidade do diretor de mostrar, já nessa época, uma visão mais realista e menos estilizada de sua própria cultura e, principalmente, uma visão critica de sua sociedade. Como em toda sua obra, tudo é filmado de forma sensível e lenta, fixando nos rostos frios de seus personagens que parecem não terem muito do que sorrir.

Nuno Balducci

Janeiro de 2011


ISSN 2238-5290