Além da Vida (2010, Clint Eastwood)

É muito difícil assistir um filme de Clint Eastwood sem fazer comparações ou estabelecer pontos de referência com sua colossal obra cinematográfica. Grande parte das reações a respeito de Além da Vida têm limitado a apreciação do filme tentando descobrir se este é melhor ou pior do que aquele, mais inventivo ou conservador do que algum outro do diretor, num supérfluo jogo que termina por se esquecer de concentrar a atenção no filme que Clint nos pede, hoje, para ser visto. Mais do que “contar bem uma história” (chavão de 9 entre 10 textos escritos sobre o diretor), ao problematizar a situação de sua obra, Clint levanta questões relacionadas à condição do cinema atual.

Em diversas entrevistas, o diretor repetiu seu interesse em oferecer a uma geração que se comunica numa linguagem MTV (oferta que não denigre esse tipo de linguagem) outra maneira de se expressar, de lidar com a imagem, com o ritmo e a noção básica do movimento audiovisual. “Existem outras formas de olhar, lembrem-se disso” é a síntese de seu discurso. Discurso que está inserido nas diversas camadas de encenação que compõem Além da Vida como um questionamento de sua própria linguagem, e que corre o risco de passar despercebido (no recurso da imagem, não no das entrevistas ou meios de marketing, avassaladores), inclusive em nosso país.

O cinema brasileiro, em suas recentes feridas causadas pela intromissão da fé como voz a ser proferida em filmes de ideologias, pode dificultar ainda mais a experiência evocada por Clint em sua abordagem da vida após a morte e outros princípios de uma doutrina específica. Diferentemente dos filmes para a fé que têm inundado nossas salas, Clint Eastwood, há muito tempo, talvez desde que tenha entrado no cinema, continua a fazer filmes de fé que abrem um lugar maior para a dúvida do que para a convicção. Ao colocar a fé no centro de Além da Vida, Clint também coloca o cinema, pois cinema e fé, sua vida prova, são faces de uma mesma moeda.

George Lonegan (Matt Damon), médium que evita utilizar seu dom para benefício próprio (leia-se ganhar dinheiro) e termina por se convencer que é na verdade um amaldiçoado, protagoniza no filme algumas cenas que falam bem mais do que Clint poderia fazer em qualquer entrevista. São três os momentos de conexão mediúnica em Além da Vida. O primeiro, bastante breve, nos mostra o quanto George se sente pouco à vontade consigo próprio, o segundo, e talvez o mais intenso, revela a solidão que o dom impõe sobre George, impedindo-o de se relacionar com alguém (no caso, a personagem de Bryce Dallas Howard), e o terceiro, com uma criança que precisa crer, reata em George sua estima e valores pessoais, sua justificativa de vida. Cada uma das cenas, numa mesma medida, representa perfeitamente o outro olhar pedido por Clint, na duração dos tempos, na mansidão dos diálogos, enfim, na maneira como ele faz de cada contato com os mortos uma espécie de pequena sessão de cinema.

Para fazer o contato, George precisa parar, acima de tudo, parar. Ele precisa da mais plena atenção do outro, precisa tocar-lhe as mãos, ouvir o silêncio. A escuridão em que afunda seu rosto, nas primeiras duas cenas mencionadas, aproxima-o ainda mais do espectador de cinema, cada vez mais raro e desacreditado. Clint parece definir não só a condição ideal da projeção cinematográfica, mas até mesmo a idéia de que é natural para a imagem lidar com a morte. Toda imagem, espectro de um mundo e de eventos já mortos, carrega em si um luto que precisa ser resistido, enfrentado pela continuidade potencial que ela despertará no olhar espectador – tomemos Daney e sua imagem-túmulo. Toda imagem, Clint sugere, pode ser o lugar de conexão para dimensões que não subsistem além dela, o espaço e o tempo dilatados do mundo, capazes de revelar no outro pólo da conexão (o espectador), segredos que não poderiam ser descobertos de outra forma. Cada imagem de Clint termina, assim, sendo o vetor que permitirá escolher entre o dom e a maldição, entre o ver e o calar-se, pois fé consiste em ter coragem de decidir. O que prova: Clint Eastwood é um homem de fé.

Fernando Mendonça

Janeiro de 2011


ISSN 2238-5290