Sombras no Paraíso (1986, Aki Kaurismäki)

O rigor narrativo parece estar profundamente enraizado no consciente do autor Aki Kaurismäki. Da primeira até a última cena somos introduzidos a uma lógica de storytelling em que a economia é valorizada no que diz respeito a diálogos e a descrição de ambientes. O resultado mais interessante dessa aparente severidade é a profunda elegância com que os personagens vão sendo desenvolvidos: mesmo que exista alguma porção de afetação (em maior ou menor grau) em absolutamente qualquer persona que apareça na tela, essa excentricidade em momento algum desembocam em maneirismos narrativos. Dentro desse plano de coesão narrativa através da negação ao óbvio, a humanidade representada na tela segue errante e verdadeira, trilhando cenas que, isoladas, não dizem muito – e, se dizem, podem muito bem contradizer o dito anterior. Resta, então, a apreciação do todo para o entendimento do fator humano, sutilmente exposto.

O fator humano, na esmagadora maioria de sua filmografia (pontuada pelos mesmos atores, pelo mesmo formato de tela, pelos mesmos sentimentos, num metodicismo anacrônico) é o homem confuso do hoje. Esse homem bombardeado pelas mídias, pela informação, por um ideal de felicidade, pela sexualidade, violência e angústia de ser essa criatura auto-consciente, na época mais auto-consciente da civilização. É para esse homem que Kaurismäki dedica, com compaixão, o suor do minimalismo.

Quando falamos em humanidade em Sombras no Paraíso, estamos nos referindo a mais uma variação dos solitários lúgubres que Aki Kaurismäki dá a luz a toque de caixa. Dessa vez, trata-se de um motorista de caminhões coletores de lixo (Matti Pellonpää, ator-fetiche do finlandês). O meio de vida árduo e infecto parece se refletir sobre ele enquanto indivíduo social. Solitário e confortavelmente algemado a uma rotina tediosa e desoladora – que inclui um curso de aprendizagem da língua inglesa e visitas a um bingo -, o insípido garbage man é descrito pelo texto de Kaurismäki como um indivíduo cujo desenvolvimento perante a sociedade se encontra (ou sempre tinha sido até então) atrofiado, um típico bicho-do-mato da cidade.

O garbage man apresenta a insipidez calculada com que Kaurismäki freqüentemente filtrava seus personagens e é justamente através de sua natureza tosca, mais precisamente por causa de um corte no braço, que ele conhece uma caixa de supermercado (Kati Outinen, também uma atriz-fetiche do cineasta), que o ajuda a estancar o ferimento. O corte obviamente representa um rompimento metafórico, pois é com a chegada dela que começam verdadeiramente os conflitos do filme – que giram em torno da presença feminina na vida de uma típica figura “kaurismática”.

O interesse do diretor passa a ser então a forma como seu solitário vai se moldando aos novos sentimentos que começam a tangê-lo. Aos poucos percebemos a derrocada de um lado autista dessa persona através do contato humano, da atração homem-mulher. O personagem percorre o caminho inverso daquele que seria visto em Se Cuida, Tatiana (de 1994 e interpretado pelo mesmíssimo Matti Pellonpää), onde o mecânico roqueiro, percorria o primeiro ato do roteiro como um falastrão extrovertido e, com a aproximação da fêmea (a Tatiana do título, interpretada pela mesmíssima Kati Outinen), sucumbia a um estado absoluto de introversão. Em Sombras no Paraíso, acompanhamos essas pequenas batalhas internas, as dúvidas, inseguranças e incertezas que Kaurismäki aponta como habitantes na mente dessa representação de ser humano – encorpada pelo homem urbano do primeiro mundo, transitando sozinho como parasita da metrópole cinzenta.

Kaurismaki mais uma vez desfruta do contraste entre a dureza do ganha-pão desse homem rude, animalesco em sua inabilidade comunicativa; e suas limitações para com o mundo prático, do convívio em sociedade, das vitórias amorosas. Ele emoldura toda a narrativa com essa estranheza, que muitas vezes parece vomitada pelo próprio imaginário das criaturas deslocadas que cria, observa e, por fim, filma.

O longa é a primeira parte da, assim convencionada, “Trilogia dos Operários” que compreende ainda Ariel (1987) e o triste, comedido e belo A Menina da Fábrica de Fósforos (1989). Sombras no Paraíso, diferentemente dos outros dois, apresenta-se bastante articulado, mesmo com suas doses generosas de melancolia.

Bruno Zanile

Junho de 2010


ISSN 2238-5290