A Rede Social (2010, David Fincher)

Não há arte sem riscos. Das não muitas coisas que se pode afirmar sobre o objeto artístico, em termos que abrangem a mecânica de sua realização à maneira como ele é recebido, há no risco um dos princípios de todo e qualquer interesse estético. Grandes são as obras que se arriscam a deixar isso evidente. A insegurança criativa, a força da dúvida, a humildade da incerteza, são características que fragilizam as maiores obras da expressão humana, extraindo delas a sua permanência, justificando seu vir a ser.

Do primeiro ao último filme de David Fincher, temos um leque de possibilidades que iluminam um exemplar protótipo do que poderia ser chamado um cinema de riscos, ou para sermos justos diante da heterogênea obra do cineasta, alguns cinemas do risco. Desde seu primeiro filme, Fincher destacou-se no disputado cenário do cinema que ergue sua face mercadológica ao paroxismo, como alguém que não temia arriscar-se, alguém que encontrava na experimentação uma saída para os gêneros, revitalizando distintas vertentes dos filões mais rentáveis das últimas décadas. Seus cinemas, em graus variados, foram desenvolvidos sob riscos dos mais intensos, muitas vezes não vencidos ou disfarçados; riscos da técnica, da narrativa, da identificação com o mundo, da condição física e ideológica da imagem, riscos que sempre fizeram de suas obras, testemunhos corajosos do homem contemporâneo. A maior diferença nesta variação dos cinemas de Fincher, todos já sabem, veio à tona com O Misterioso Caso de Benjamin Button (2008) e a pergunta que o acompanhou: onde foram parar os riscos?

É impossível pensar A Rede Social sem encontrar neste um prosseguimento perfeito para o filme que o antecedeu. O risco agora, unicamente, consiste em sua própria ausência, no perigo que é se esforçar por um cinema da certeza, do explicável. E por mais seguras que sejam as novas bases que alicerçam os dois últimos filmes de Fincher, ou talvez por sua segurança, não podemos deixar de considerar o não-risco como o maior dos problemas a ser enfrentado em arte.

A Rede Social é como o resultado perfeito para uma fórmula aritmética que alguém descobre sem ter se dado ao trabalho de tentar resolvê-la por si só. Tudo está correto, em seu lugar, mas não se conheceu o prazer do desafio, do enigma. Pois já não cabe o mistério no cinema de Fincher, ao menos não no que ele nos dá hoje. A aparência de suas conexões, claramente associadas, em A Rede Social, na virtualidade imposta pelo enredo, termina por revelar um autor muito mais assustado com sua linguagem do que aquele que, amadoristicamente, arriscava-se ao erro, a ultrapassar os limites da expectativa. Já não sobram espaços para falhas, não aquelas que podem ser identificadas na superfície de um filme. Mas como Fincher também não vai mais muito além do que há de superficial na imagem, alcançar um estado impecável de produção pode ser justamente o que lhe coloca em risco. No cinema, é preciso ressaltar, 2 +2 sempre pode dar em números inesperados; e aquele que pensa ter encontrado a fórmula ideal pode chegar a resultados que pecam por caírem sempre na mesma resposta, na exatidão, no previsível. Por enquanto, Fincher pode estar satisfeito com uma equação que termine sempre em 4, mas torcemos para que suas futuras soluções encontrem novas maneiras de reabrir o problema.

Fernando Mendonça

Janeiro de 2011


ISSN 2238-5290