Falência de uma ideia?

Dentre todos os problemas éticos que quem escreve sobre cinema, literatura, dança, música ou teatro pode enfrentar, talvez o mais grave seja aquele de propagar uma opinião segura quando se está dentro do objeto analisado e/ou comentado. Quando se está, em resumo, envolvido até os fios de cabelo em tal ou tal produção, provavelmente há uma chance do afeto se misturar com a atividade desprendida pelo trabalho, e aí a situação estará para sempre turva. A opinião sincera poderá ser desvalorada em favor dessa filiação extrema, dessa paternidade assumida.

Então, como encarar a tarefa perigosa de falar sobre certo fracasso da nossa oficina A Anti-Fantasia de Martin Scorsese? Começamos acreditando que, por ter se tratado de uma experiência pouco proveitosa que de longe ficou bem atrás de todas as outras experiências anteriores (e expectativas: era a oficina mais pedida desde então) desse gênero que realizamos, e por termos que assumir toda a paternidade (ou boa parte dela) dessa pequena tragédia de nossa (velada?) vaidade, um olhar se faz necessário: o da auto-crítica (e o da crítica aos outros) inserida em dois comentários.

I: desde A Galáxia (Não) Particular de Quentin Tarantino e, mais claramente, em As Leis do Afeto: o cinema de Pedro Almodóvar, que temos que agradecer ao Cine SESI Pajuçara e a Marcos Sampaio, o Marcão, por acreditar nessa ideia maquiavélica que é realizar as nossas oficinas em Maceió. Estamos aprendendo juntos a criar alguma coisa de qualidade: nós, com o verbo e com as ideias sobre as obras dos cineastas; o SESI, com a organização, com a cessão do espaço, com o aprimoramento da projeção (que sempre falha em alguns momentos, e isso, sem querer justificar, faz parte de nossa sucessão de pequenos erros justamente de organização) ainda engatinhando numa empreitada desse porte inédito, assim como nós. Parece-nos, ainda hoje, uma loucura arriscar horários em que o Cine SESI regularmente não abre apenas para comportar bons encontros nossos com pessoas que não conhecemos em sua maioria. Porque antes de abrir um espaço para comportar “oficinas” é exatamente isso o que acontece, esses “encontros”, já que, como sempre afirmamos, tudo nisso é questão de trocar ideias, e, se estamos no palco em frente às pessoas é apenas por termos tido a ideia antes de outras figuras conceberem sua possibilidade. É um ato, também, de coragem. Coragem de Marcão, sobretudo, ao nos deixar, em tese, cuidando da sala de cinema e de um sucesso que dependerá mais de nós e do tema do que propriamente do nome e da fama do Cine SESI. Podemos arruinar tudo, podemos sair pouco felizes e bem pouco queridos em nossas “funções” sociais (de críticos? de jornalistas?).

Lógico, desde então (janeiro e abril de 2010) aprendemos a não contar com o bom número de público que inocentemente sonhávamos, mas sim com um público bom, valioso em seu pequeno número, grandioso em suas ótimas colocações. Nos acostumamos, dirão até que mercenariamente, com o pequeno lucro que se recebe ao conversar, ao passar ideias e receber outras em troca. Falamos em lucro financeiro mesmo (pois receber ideias em troca não tem preço, falamos até utopicamente aqui), aquele que recebemos ao término de toda oficina com sorriso no rosto e com mais ideias na cabeça. Em suma, o que aconteceu foi que dessa vez não pudemos contar nem com uma coisa nem com outra, nem com o pouco público que estávamos habituados (20, 25 pessoas), nem com o pequeno público valioso dentro desse pequeno público tradicional (ele existiu, mas em menor número ainda, dentro de um público ainda menor) em seus comentários maiores e redentores. Claro, existem participantes que, pela ironia do mundo e do curto tempo ao se executar tais oficinas (apenas um ano), já se tornaram bravos veteranos (citamos dois: Pablo Lima e João Carlos), e que são justamente as pessoas que sustentam o debate e, no caso da presente oficina, fazem críticas construtivas, como foi o caso de João Carlos, a respeito de certo fiasco quase generalizado do primeiro dia. Mas de forma geral, o grosso do público de novatos do primeiro dia (que, com força, nos abandonou no segundo e no terceiro) não parecia estar empolgado quanto às nossas colocações. Lembramos que o problema não é o público que não foi, mas justamente o público que, em algum momento, resolveu não continuar conosco.

Como sempre colocamos, é essencial o debate e a troca de ideias. Não é preciso apenas conhecer os filmes, embora isso tenha algo de primordial. Tivemos a impressão de que, dessa vez, muitos dos que foram não conheciam os filmes de Scorsese (ou que então odiaram tudo o que dissemos sobre eles) e, por isso, se limitaram a não fazer muita coisa, nem falar nada ao final das aulas, como fez um dos participantes, que foi-nos justificar seu silêncio por não conhecer praticamente nada do cinema de nosso homenageado da vez, ou outro, que até nos disse que provavelmente não poderia ir no terceiro dia (mas foi!). Achamos as atitudes sensacionais, porque já tínhamos aí uma troca de informação – e, para quem acredita em coincidência ou milagre, foi justamente o participante que só conhecia dois filmes quem ganhou a filmografia do Scorsese que sorteamos, e conhecerá a partir de agora toda sorte de filmes que o cineasta realizou nesses 50 anos de carreira; ou como outro, o Lipe, que também é um veterano de oficinas e que, mesmo sem conhecer alguns dos filmes citados, está sempre atento a tudo para poder conhecer depois. Nossa empreitada, desgastada e desgastante dessa vez, também nos serviu para reavaliar tudo, para compreendermos a derrota que, desde a primeira oficina, esperávamos temerariamente de uma forma ou de outra – afinal, quem somos nós? Se um nome importa em Maceió mais do que tudo, ainda estamos construindo os nossos. Quem sabe se nossos nomes são garantia de algo?

É preciso estar interessado em conhecer e debater. Certamente que, sem se ter visto os filmes, o debate sobre os filmes em si fica um pouco difícil (e ninguém é obrigado a falar sempre, lógico; mas é obrigado a justificar o porquê de aparentar não estar se agradando de tudo o que é dito e trabalhado, como ética e educadamente fez o João Carlos), mas muito mais ideias são sempre lançadas a partir das obras analisadas. Em todo caso, talvez tenhamos, como de costume, levado demais para o aspecto mais específico do discurso de certos filmes, embora todos eles tratassem de um tema que aparece não só em Scorsese, mas em qualquer lugar: o homem contra o meio social em que vive. É um tema ao qual as imagens de Scorsese dão face, mas não são somente elas que darão o tom definitivo sobre este tema (lembremos de Dostoiévski e de tantas outras figuras da arte em geral). Provavelmente tenhamos pecado aí, com a imensa quantidade de filmes a se analisar em três dias e, também, ao termos nos abatido com a condição precária do público em si, que, somente em poucos instantes (e poucos filmes) nos dava o retorno. Se dizem que quem fala sozinho é louco, representamos, por alguns longos minutos, o papel de loucos num palco. Uma intervenção interessante, mas realmente triste.

Das faces do público mergulhadas em tédio e do novo DVD player do Cine SESI onde exibimos desajeitadamente (pois tínhamos que aprender a mexer nesse novo player) cenas de alguns filmes de Scorsese, queremos lembrar para sempre, para, com experiência, enriquecermos e procurarmos ao menos conseguir prender a atenção do público, algo que, tanto o público quanto nós mesmos sabemos, sempre conseguimos com nossas ideias e conversas.

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II: não há profissionalismo. Não somos profissionais e há de se entender que, de uma forma ou de outra, há sempre o acaso. No primeiro dia da oficina, o pior de todos (incrivelmente, o segundo, com apenas 10 participantes, foi muito bom e, como costumou ser nas oficinas anteriores, bastante divertido), chocados com o pequeno público, tentamos nos comportar como bons profissionais que não somos. Resolvemos fazer o que sempre fazemos: acostumados com as inscrições de última hora (as belas inscrições, temos que dizer, pois a maioria do público bom nos aparece sempre a 10 minutos da hora marcada para o início das atividades), demos os famosos e, não sabemos se para todos toleráveis, 15 minutos de tolerância. Entretanto, não contávamos com a visita (inesperada, não avisada a nós: um tiro pela culatra) do pessoal do Informativo CESMAC que queria nos entrevistar. Entrevistaram-nos e, com isso, causaram ainda mais atraso. Alguns participantes desistiram antes mesmo de entrar na sala; outros, entraram na sala com cara de quem já havia desistido de nos ouvir ou nos levar a sério. No outro dia simplesmente não compareceram para ouvir pelo menos nossas profundas desculpas sobre o fato que não tivemos controle, e pelo atraso da hora do término das atividades daquele dia, que se estendeu do meio-dia previsto para às 13h30 (provavelmente nosso maior atraso nessas quatro oficinas, sendo que das outras vezes o tempo passava por conta dos bons debates e agora não). Mais uma vez, o acaso. Pedimos desculpa até por ele, por este acaso que não tivemos como driblar. Será que aparecer na TV, num programa que (podemos adivinhar) vai utilizar nossa imagem como ex-alunos vencedores na profissão – e os mais próximos de nós podem afirmar, não somos - falou mais alto?

Não ficamos sabendo ao certo qual o problema: se nós, se a organização, se o atraso, se a estrutura do diálogo. O fato é que um fracasso se formava aos nossos olhos, mesmo com o nosso esforço e o dos participantes veteranos (e de alguns que não são) que, se podem ser chamados de heróis é simplesmente pelo fato de terem encarado os três dias e não pelo motivo de terem participado bem e terem tentado boas interações com as ideias lançadas. Queremos lembrar que, desde o princípio dessa ideia, o que nos motivou foi a possibilidade de alavancar debates sobre cinema. Não havia o interesse de, com as oficinas, apresentar os aparatos técnicos sobre os filmes dos cineastas, trabalhar uma parte prática, finita, tecnicista. Todos os nossos releases, desde o começo, deixam isso claro. Não era algo como “Scorsese utiliza a câmera fixa na cena tal” ou “Almodóvar passou três anos filmando filme tal e Antonio Banderas teve cenas perigosas sem dublê”. A sensação de frustração que A Anti-Fantasia de Martin Scorsese nos passou é exatamente o contrário da primeira impressão que sempre tentamos construir e deixar lúcida, a de que, ali, tais informações podem surgir desde que se encaixem nas nossas ideias e discursos (para justificar certas atitudes de personagens, de encenação, etc) e nas ideias do público. Não trabalhamos com informações soltas, válidas pelo que carregam apenas da curiosidade barata das notícias e das entrevistas ocas, nem com dados precisos. Nem no Filmologia e muito menos nas oficinas.

Por outro lado, por certa parte do público ser de “marinheiros de primeira viagem” sentimos que passamos a impressão negativa da coisa displicente e da falta de profissionalismo. Desse modo, pedimos aqui perdão se foi essa a imagem que fixou-se em seus olhos e cabeças. Porém, a questão da falta de profissionalismo que talvez possa surgir, dela temos que e podemos discordar: como já dito, não somos profissionais, somos apenas apaixonados pelo debate, o que talvez seja nosso grande problema (e um problema que, sem querer, “vendemos” para o Marcão, quando ele resolveu “nos adotar”, “comprar” a ideia). Essa pequena falta de organização tão cara a nós (que diz mais respeito mesmo aos momentos em que vamos exibir cenas) nunca foi um problema tão grande como, sentimos, agora o foi. Mas por qual motivo isso aconteceu, justamente naquela que seria a oficina mais esperada e, talvez, mais frequentada de todas? Por qual motivo podemos estar, como diziam antigamente quando se falava de pessoas que transgrediam alguma norma social, “mal-falados na praça”?

Talvez por termos sentido falta do debate e talvez por, em muitos momentos, sentirmo-nos como que apenas assistidos (ou nem isso), pouco utilizados para fins de interação. Simplesmente não podíamos assistir não a totalidade, mas uma parte do público inédito, questionar, discordar, concordar, piscar os olhos? Essa oportunidade, todos perdemos. Salvo aqui e ali, foi difícil manter a atenção do público (principalmente no primeiro e terceiro dias) e foi bastante complicado sentir os filmes passarem por todos nós, deixando algumas impressões soltas. Não sabemos ao certo o momento em que deixamos de acreditar no público e o momento em que parte do público deixou de acreditar em nós, para, nos dias seguintes, nos abandonar. No momento do atraso, talvez? No momento em que, como geralmente acontece, nos atrapalhamos um pouco para encontrar as cenas corretas que pretendíamos exibir? Na projeção pouco eficiente, com cabeças cortadas – mas claro, o Gilson, grande sujeito (a quem agradecemos muito), não é projecionista e estava lá apenas para nos ajudar com a maior das disposições que vimos nessas quatro oficinas (nas outras, era um outro rapaz, também muito prestativo, que nos ajudava), como bom cidadão que sempre foi e é para nós e para todo o público do SESI?.

Mas a maior questão nos parece ser essa: a ideia faliu por si? Ou fomos nós quem falimos uma boa ideia? Saberemos se houver nova oficina ou se alguém quiser nos responder, para que possamos sustentar um bom debate e troca de ideias. Por enquanto, é essa a dúvida, a pergunta que não falha em nossa cabeça. Se a ideia faliu, há algum culpado? Se o público esperava outro formato de oficina, como encarar isso? E se nosso formato, por si, já se esgotou? Qual a diferença entre Scorsese, Tarantino, Almodóvar e Burton? Teremos que, sempre, como desde o início tristemente pensamos, bater na eterna tecla dos cineastas “da moda”, dos cineastas que resumem não vidas, mas estilos de vida para certas pessoas, para termos um público participativo? Estamos sendo reducionistas? Preconceituosos? Ridiculamente soberbos? Apressados em expressar e questionar o fim de uma ideia? Quem saberá…

Em todo caso, como falamos no início dessa carta aberta, estamos perto demais do objeto analisado e podemos tê-lo distorcido até o limite da abstração. Somos parte dele e, até certo ponto, somos culpados pelo seu coração e cérebro. Portanto, levem a sério estas palavras apenas se conseguiram se deixar levar pelo texto até esse último parágrafo. Se não foi este o caso, se todos os argumentos que expusemos não foram responsáveis pelo êxodo do pequeno público no segundo e terceiro dias, se eles (estes argumentos) estiverem de fato equivocados e exagerados, pedimos outra vez mil desculpas. Podem, entretanto, nos culpar para o resto da vida e nos tratar como as verdadeiras farsas que, sim, podemos muito bem ser, só por termos pensado erradamente tudo isso. Ou então, podem comparecer à próxima oficina, caso haja, com o senso de diálogo completamente renovado.

Ricardo Lessa Filho e Ranieri Brandão


ISSN 2238-5290