Sobre Falência de uma ideia?

Nota: a carta abaixo, enviada por Allan Nogueira, participante da oficina sobre Martin Scorsese, foi transposta do Orkut, seu local original, para nossa seção de cartas. Pedimos ao Allan para trazer o debate para cá, pois julgamos ser um espaço mais adequado e sem limites de caracteres como acontece no site de relacionamentos. Com a permissão dada (e com a atenção que o próprio autor nos chamou no Orkut sobre certo tom informal de sua carta), iniciamos aqui uma conversa.

Rapaz, acabei de ler a carta aberta sobre a oficina do Scorsese.

Talvez pelo fato de ter sido minha primeira vez no lance de vocês, não consegui concordar com o tom de ‘derrota’ que captei na carta. Gostei da forma como a oficina foi conduzida e de como os debates aconteciam – apesar de ter participado pouco (ou quase nada), pelo meu repertório scorseseano ser escasso. Aliás, por conta da oficina me instiguei em ver as coisas dele que baixei aqui… A respeito da quantidade de pessoas, acho que vocês poderiam colocar outros elementos para pesar a pouca presença. Até o fato de ser um mês de férias pode ter ajudado neste sentido.

Vivi coisas parecidas no ano passado. Tive que dar umas aulas no curso de Letras da Ufal – exigência da Capes para estudantes de pós-graduação. Às vezes saía com impressões parecidas a que vocês tiveram: de que a parada não tinha rolado legal, ou que eu não tive uma boa performance, ou que os estudantes não curtiram, ou o material que levei pra aula foi ruim… depois descobria que eu não estava totalmente certo sobre minhas impressões, porque algumas pessoas elogiavam (ora diretamente pra mim, ora para minha orientadora, ora entre eles). A autocrítica é algo bacana e faz a gente investir numa melhora, mas acho que, tanto no caso de vocês com as oficinas, como no meu caso com as aulas, é preciso mais tranquilidade, afinal são os primeiros passos que estamos dando, etc.

Voltando para a oficina. Em alguns momentos o João chegou a comentar sobre um certo tédio meu durante as exposições, impressão que ele teve. Respondi que era bem mais uma questão minha, de não conseguir me concentrar muito bem apenas ouvindo, por conta da necessidade de escrever, anotar referências, datas, nomes, etc. Mas conseguia ‘retornar à realidade’ nos momentos em que os trechos dos filmes eram exibidos. hehehe

Sobre estas questões específicas, daria dois conselhos em relação a logística: disponibilizar alguns papéis para anotações (ou avisar aos participantes a respeito de material) e pré-editar as cenas selecionadas para exibição, que é algo relativamente simples de se fazer com um movie maker, power director e outros programas do tipo – isso ajudaria bastante a otimizar o tempo.

Sobre a metodologia da oficina, repito que fiquei satisfeito. Só diria pra galera tentar comentar um pouco mais sobre o uso dos recursos cinematográficos para a construção dos sentidos fílmicos. Sei que vocês afirmaram e reafirmaram (através do release e da carta aberta) que o objetivo estrito não é uma discussão técnica, mas levando em conta que a coisa da ‘forma-conteúdo’ é uma dualidade indivisível, seria interessante que as discussões tocassem também nesses aspectos.

No mais, vocês tem um conhecimento de cinema legal, um repertório fímico bacana e uma capacidade de exposição que torna o lance interessante. Parabéns pela parada e boa sorte em outras edições.

Falou

Allan Nogueira

Antes de tudo, muito obrigado pela sua resposta, Allan. Ficamos, Ricardo e eu, muito contentes com ela e com sua sinceridade.

Ficamos realmente felizes com a sua afirmação de que a oficina o fez ficar instigado para procurar mais filmes do Scorsese. É basicamente a nossa ambição ao realizar momentos e atividades como esta: estimular a curiosidade, ultrapassar certas barreiras dos filmes, partir para outras, bem longe dessa inicial e, provavelmente, rompê-las também.

Sua participação “pouca”, creio, foi antecipadamente justificada. Lembro que você me falou, dias antes de começarmos a oficina, que conhecia pouco do cineasta abordado. Entretanto, você tomou uma das atitudes que gostamos bastante (e foi citada inclusive na carta aberta), que foi vir conversar conosco e, ao invés de sumir como alguns fizeram (reiteramos que a carta aberta foi feita, de fato, para que todos as lessem, mas que o “alvo” principal era, sem dúvida, não aqueles que participaram os três dias, mas os que abandonaram a oficina já no segundo – por motivos que, como já frisamos, não temos como saber, só como tentar adivinhar), nos informou que provavelmente perderia o último dia de atividades (e não perdeu). É o tipo de contato que gostamos de ter, o retorno que achamos necessário, embora não seja obrigação de todos informarem tudo o que farão ou deixarão de fazer. Sua atitude, entretanto, denota todo um cuidado e, principalmente, consideração, o que é sempre bem-vindo e bom de se receber.

Também “calculamos” que a falta de público deveu-se à época do ano, Allan. Realmente. Ainda assim, foi um choque grande, pois o tema da oficina foi o mais pedido desde que começamos. Já no segundo dia, acho que deu para perceber, ficamos mais tranquilos quanto à quantidade de pessoas (inclusive, menor do que no primeiro, como todos sabemos). Foi apenas um choque, que talvez tenha nos desnorteado logo na primeira sessão de diálogos, já nos primeiros minutos de contato com o público.

Em termos de experiência, também tive uma semelhante à sua, justa e coincidentemente na Ufal. Na verdade, duas experiências de palestras que fui convidado a realizar por lá. O resultado, creio, foi bem próximo disso que você relata: com efeito, tive a mesma impressão (sobre o material, sobre meu comportamento como palestrante, sobre o tema, sobre tudo), provinda de um quase longo silêncio que o público me devolvia. Era constrangedor e bem frio, sentir isso. Mas, em seguida, acabei também recebendo retornos positivos.

No segundo dia da oficina, o João veio nos falar exatamente sobre uma das questões abordadas por você: ele lembrou que, na oficina sobre Quentin Tarantino em janeiro de 2010, foram entregues apostilas e folhas para anotação. Bem lembrado! É uma sugestão que falaremos com o SESI para rever, caso mais oficinas hajam. Essa parte mais prática, digamos assim, fica a cargo do SESI, e, sem dúvida, é uma boa ideia trazer de volta esses pequenos blocos para anotação, visto que, como foi possível observar, são muitos os filmes citados e muitas as ideias lançadas.

Quanto à logística, concordo plenamente com você, Allan. Novamente na oficina sobre Tarantino, fizemos, com alguns filmes, essa edição de imagens, o que nos poupou muito tempo e tornou a visualização das ideias bem mais dinâmica. Desta vez, como sortearíamos os filmes, resolvemos utilizá-los para as aulas e, talvez por mesquinhez, não quisemos editá-los num DVD separado, exclusivo para as aulas – sobretudo porque, muitas vezes, quando editados (pelo menos no Movie Maker), os vídeos não continuam com as suas respectivas legendas, e também porque são mais e mais coisas para carregar (e, quem sabe, como já aconteceu, esquecer). Mas é uma opinião/sugestão acertadíssima, essa sua. Creio que vamos adotá-la sempre, daqui por diante.

Bom, em algum parágrafo da carta colocamos que os termos técnicos e suas opções narrativas seriam abordados sim, justamente conforme você nos fala, a respeito da questão da indivisibilidade entre forma e conteúdo. Lógico que, como expressamos, não nos interessa abordar nada (ou pelo menos, quase nada) que dissocie uma coisa da outra, apenas ambas juntas para criar sentido e discurso. Creio que um bom exemplo desse pequeno debate comentado por nós foi a montagem de uma cena de O Aviador, quando o protagonista vai jantar na casa da namorada e fica enojado com as comidas que estão sobre a mesa. A montagem ali elucida muito bem a tortura que é seu transtorno obsessivo-compulsivo. Pena que, por termos aquele participante um tanto exaltado durante os três dias, discussões como essa foram sempre desviadas do foco. De todas as formas tentávamos retornar a certos pontos, mas, pela ação desse participante, muitas vezes, principalmente em mim, as ideias fugiam e era difícil achá-las de novo.

Novamente, agradecemos muito a você, Allan, esse teu retorno. Todas as suas opiniões e sugestões foram anotadas e apreciadas. Vamos tentar segui-las do melhor modo possível daqui para frente.

Um abração!

Ranieri Brandão


ISSN 2238-5290