Quando faltam as luzes

Nota: Um texto sobre a luz, e a ausência dela.

É perto da meia noite, de um dia comum. Um dia que respira ares melancólicos, resultado da densidade atmosférica. Quando o estado de vigília está prestes a ceder ao sono consciente de sonhos, a luz que alimenta as hélices do ventilador falta. O calor toma conta do corpo, as vozes e suposições sobre o que teria levado a luz embora começam a surgir.

Não dá mais para tentar dormir, a inquietação despertou em plena madrugada. Apesar do avançar das horas (não mais mostradas pelo rádio-relógio), luzes de prováveis lanternas aparecem no prédio da frente: pra que tatear no escuro se podem ter pequenos vãos de claridade? É frustrante, tê-la de forma limitada, melhor seria que fechassem as cortinas e rompessem com a escuridão através do sono. Alguns conseguem, outros não. Brechas de luz, de sombras e de total escuridão convivem num mesmo ambiente apertado.

O quarto, pequeno, se torna ainda menor. É preciso buscar espaço, ar, sons silenciosos da rua. Chovia lá fora, fazendo com que a sensação de abandono se tornasse ainda maior. Consegui o ar que queria, mas foi esse mesmo ar que começou a me sufocar, a produzir ventanias dentro de mim. Mais triste do que uma madrugada comum, é uma madrugada sem luz e com chuva, quando temos disposição à tristeza.

De tanto esperar, na sala vaga, espaçosa, iluminada pela vela que começava a derreter em silêncio, pensei que talvez fosse melhor buscar uma outra companhia, pois que a minha não estava sendo tão agradável quanto eu ansiava. O sono talvez se compadecesse de mim. É custoso dormir, em meio ao calor e ao mormaço interno que tomou o lugar da ventania de antes. Penso em formas de driblar não somente o suor, mas também os pensamentos. Abano levemente sobre o meu corpo um travesseiro daqueles que crianças usam, pois desde lá não consigo passar sem um deles.

Em meio ao entretenimento que o vai e volta do travesseiro me proporciona, estampado com motivos infantis (curiosamente, de uma garotinha que dorme ternamente) e cores leves, sinto repentinamente o frescor do ventilador e as luzes do lado de fora se acenderem: é a luz que retorna. Engraçado como depois de certo tempo começamos a nos acostumar com as novas condições que nos são impostas e até a pensar que poderíamos sustentá-las por mais algum momento. As cidades que não param se rendem à escuridão total por alguns segundos, minutos… Algo nos desperta dos movimentos de sempre. A ausência da luz parece acender o que estava apagado dentro de nós, pois somos obrigados a nos guiar por nossos próprios olhos, a redescobrir o que há tanto se tornara rotineiro em nossa concepção diária sobre tudo o que nos envolve.

Se para enxergar é preciso ter as luzes apagadas, talvez a escuridão precise se tornar mais presente, e essa não é uma ideia recém-descoberta. Ela dá novas formas aos objetos de sempre, torna audível os sons mais calados da noite, faz o céu brilhar. A chuva leve cai quase como um manto sobre a terra, como veludo aos nossos ouvidos e prata ao olhar. A tecnologia ainda resiste sob essas condições, mas é inevitável sentir que o tempo, nesse momento, se desloca de nós, ou pelo menos de mim. Quando volta a luz, o rádio-relógio recomeça o seu trabalho, literalmente do zero. E do zero partimos.

Ana Clara Martins

Janeiro de 2011


ISSN 2238-5290