O Homem de Londres (2007, Béla Tarr & Ágnes Hranitzky)

A vida dupla de todos nós e o dinheiro

A Londoni Férfi é um filme com vários problemas. Porém seria injusto resumi-lo a eles, através da fácil frase: “Béla Tarr está se repetindo sem nenhuma criatividade”. Percebamos primeiro, portanto, por que o longa pode ser motivo de interesse para só depois enxerguemos os motivos pelos quais é, em certo sentido, um brilho menor na filmografia de Tarr.

O filme, apesar dos pesares, tem dois planos inesquecíveis. O primeiro se passa na taverna de uma pequena estalagem – esse cenário, europeu por excelência, tão caro a Tarr. Um homem toca a sanfona que ouvimos persistentemente ao longo do filme. Perto dele, alguns velhos frequentadores do lugar, inusitadamente – pois sempre os vemos sentados e com uma expressão cansada – dançam. Dois deles de maneira estranha: um equilibrando acima do nariz uma bola de sinuca, outro balançando uma cadeira com as mãos acima da cabeça. O filme é permeado por duas músicas principais: uma mais sombria, que remete ao cinema de gênero e aos filmes de crime e suspense, outra melancólica, que pode remeter a esse universo triste de uma Europa velha e exausta. Porém, a sanfona toca agora – pela primeira e única vez no filme inteiro – um música diferente, e mais alegre (sem no entanto abandonar a melancolia). Estamos na metade do filme e podemos perceber qual é a preocupação de Tarr ao construí-lo: o que é aquela felicidade que as pessoas tanto buscam? A resposta permanece tão misteriosa e opaca quanto essa esdrúxula dança na taverna que remete vagamente a um sistema planetário precário, mas que ainda assim gira. A pergunta, porém, foi feita.

A cena e sua alegria vaga e distante duram pouco. Ao redor dela, no filme, giram apenas prostração, miséria, melancolia, pessimismo e solidão. A Londoni Férfi se centra em Maloin, um trabalhador noturno que por acaso encontra uma mala contendo uma verdadeira fortuna em libras esterlinas, fruto de uma transação obscura. Um homem já havia tentado roubar a mala: Brown. Porém foi mal sucedido e o dinheiro, sem que ninguém visse, foi parar com o nosso protagonista, que vive um casamento destruído e é obrigado a ver a filha lavando uma mercearia por causa da pobreza. Devolver a maleta é possível, mas Maloin a mantém escondida e o tom épico do filme, típico de Tarr, nos mostra: eis a condição humana, sempre em busca daquela estranha e utópica felicidade, sem ver que, agindo assim, apenas agrava a miséria de seu estado.

Pois o segundo plano poderoso é um close-up da mulher de Brown, ao ser abordada pelo comissário de polícia sobre a possibilidade de seu marido não só ter roubado a mala, como de ter assassinado a pessoa que estava destinada a recebê-la (o que de fato aconteceu). Enquanto o comissário fala, o rosto da excelente atriz – provavelmente escolhida a dedo para a cena, a ponto de lembrarmos a inconsistente mas interessante ideia de “fotogenia” de Epstein – escuta e tenta conter o choro com uma dignidade avassaladora. O comissário conclui: “você não sabia que seu marido tinha uma vida dupla”. A Londoni Férfi é uma narrativa complexa – e portanto não pode se resumir à “falta de criatividade” de seu diretor – sobre a vida dupla de todos nós: nossa vivência necessária do cotidiano – e nossa eterna busca por uma felicidade inominável. Busca quase sempre acompanhada de tanto mais de infelicidade concreta, mas, quand même, busca que nos move pra frente. A esposa de Maloin assim o define: “isso é típico de você! Ficar meses e meses calado e de repente, no pior dos momentos, agir e estragar tudo”.

A estética de Tarr dá ares de universalidade a essa história, através da trilha, dos planos longuíssimos que tentam trazer a mise-en-scène ao reino opaco e ininteligível das coisas materiais, mas sobretudo de uma construção diegética própria: o mundo onde os personagens de Tarr se encontram é um mundo velho e cansado (como as rugas no rosto da mulher de Brown), cheio de vapores, paredes de tijolo antigas e em ruínas, uma pausa para a aguardente na taverna melancólica mais próxima – um mundo que tem muito a aprender com seu passado; mas esse aprendizado é uma prova difícil para seus habitantes. O interessante em A Londoni Férfi (algo mais a se ver neste filme demonizado rápido demais por uma crítica jornalística às vezes superficial) é que essa universalidade encontra uma particularidade localizada, a saber: não apenas a de seu protagonista como ser individual, Maloin, mas a de um entorno social que sobrevive às custas dos sonhos de felicidade das pessoas, sobretudo através de um meio por excelência: o dinheiro. Tal meio é o que liga, em nosso contexto, estes dois antônimos que vão juntos desde as produções culturais mais antigas da humanidade: felicidade e tristeza, ou, resumindo em uma palavra, sonho. Vide a sequencia significativa e evidentemente kafkiana (lembrar os estudos de Benjamin sobre Kafka) da compra do casaco de pele.

Para finalizarmos, lamentemos as limitações do filme, que podem ser divididas em dois tipos: as limitações da produção contubardíssima (que começou com o suicídio de seu principal financiador) que atrasou demais a realização e resultou em cópias com uma dublagem irreversivelmente desastrosa dos diálogos. E as limitações estéticas, sobretudo à tentativa de Tarr de “aplicar” seu mergulho irracional nas coisas materiais do mundo a uma narrativa de suspense e crime de gênero (baseada em romance de Georges Simenon). Embora sempre seja empolgante quando um realizador com apuro e preocupação estética sistemática entre no reino do cinema de gênero (os que gostam de purismos começam a falar que essa é mesmo a natureza da Arte do cinema – que nasceu popular), aqui o resultado sai aquém do esperado, uma vez que o enredo bastante amarrado da trama deixa os mergulhos misteriosos e arrebatadores de filmes anteriores de Tarr mais fracos, menos ousados, muito planejados e previsíveis. Tarr descobre que “aplicar” é um termo complicado quando se trata de coisas humanas.

André Antônio


ISSN 2238-5290