Almanaque de Outono (1984, Béla Tarr)

Alguns nutrem que Arthur Rimbaud, em seu afamado soneto das vogais, encontrara enfim a cor delas, através da levedura duma vidência impetuosa: A- negro; E- branco; I- rubro; U-verde; O- azul. Entretanto, segundo Verlaine, Rimbaud contara mesmo com uma sublimatória arbitrariedade para calçar as vogais em cores.

Em Almanaque de Outono as cores disseminam-se, fundem-se, enroscam-se para relacionar a densidade com o trigo do joio das cismas. São cinco cores, mas em vez do branco (como no poema de Rimbaud) dá-se o amarelo, e em vez de cinco vogais, elas proliferam-se através de 5 corpos, ou melhor, através dos climas erigidos quando o trigo ainda só vislumbra sua liberdade do joio dramático.

Aqui estão cinco personagens. Apenas dois possuem o mesmo sangue, parentesco pelo qual o sintoma de degenerescência moderna alcança o maior nível de adaptabilidade. Vê-se assim que Béla Tarr não abandona a noção do consanguíneo intrínseco à noção de lar, mas alarga-a a partir dum reino de afinidades – afinidades estas escassamente notáveis, a não ser quando respeitamos a semântica da solidão.

Cada personagem parece reconhecer mesmo apenas uma necessidade deslocadora. E Béla Tarr também. Ele simplesmente crê na prontidão de nossos deslizes imaginativos e na nossa indisciplina defronte da literariedade da visão, que estigmatiza o esmalte, sem a concepção informativa dos matizes, vendo-o como uma ordinária saga de translação: vermelho – desejos; amarelo – riqueza; azul – tranqüilidade; verde – natureza, esperança.

A ronda atormentadora da câmera é a desmistificadora: das cores, e de nossas pífias relações ante elas. O movimento artístico de Béla Tarr experimenta as perspectivas, importunando foco e margem do ambiente quando as cores já informam suas tendências dogmáticas numa amálgama, cuja estrutura, apesar de não ser talismânica, sugere a adaptabilidade dalgum ornamento esotérico.

Almanaque de Outono no traz um personagem sempre acompanhado por outro, nos planos. Mesmo quando há um a sós, há logo outro que se vincula. Aqui, as maneiras de inserir solidão na carne são a interiorização e a exteriorização abstratas; havendo uma conversa, alguém se perde nalgum monólogo; havendo um monólogo, mas uma imagem dispondo uma conversa, a imagem reduz sua dimensão, encontra só uma face, gerida por olhos em simpatia pela sua primeira condição: ver. E havendo afinal o monólogo, e a imagem dispondo a dimensão de um monólogo, somos absorvidos na torrente verbal que merece um quê de desconexo e um quê de convexo. E quem escuta tais palavras? Algo das cores! A torrencialidade das cores as escuta. Assim, a profusão de imagens e a sinestesia: terreno bastante conhecido de toda poética de Rimbaud.

Bruno Rafael


ISSN 2238-5290