The Prefab People (1982, Béla Tarr)

Negando o espectador pré-fabricado

Assistir a The Prefab People, hoje, pode ser uma experiência cansativa. Afinal, o filme se centra em uma diegese que o público contemporâneo já conhece de cor: o lar familiar opressivo que, dentro de um contexto social mais amplo, acorrenta, impede que os sonhos pessoais se realizem e que se seja feliz. O tom do filme é, claro, o velho “realismo social”, com seu preto-e-branco um pouco granulado e suas imagens documentais nos créditos de abertura para sinalizar que o que vai se ver não é uma pura fantasia, mas algo baseado numa realidade empírica e urgente. O mais interessante, porém, é que essa realidade não é, como de praxe, o capitalismo, mas o “socialismo que não deu certo” da Europa oriental onde Béla Tarr nasceu.

Isso deve nos levar a ver o filme por outro viés que não simplesmente o de uma estética desgastada. Percebamos: o socialismo do filme é quase o capitalismo ocidental tout court, com direito à compra de uma máquina de lavar no supermercado, o desejo verbalizado de financiar um carro para a família e de se mudar para uma casa melhor. Há uma sequencia crucial, onde o pai dialoga com o filho mais velho para explicar uma teleologia que ele “aprenderá na escola mais tarde”: primeiro eram os homens primitivos, depois as economias antigas, depois o feudalismo, depois o capitalismo, até que chegou o socialismo (“somos mais desenvolvidos”, diz o pai), e, no futuro, o comunismo, onde todos poderão ter o que quiserem. Não precisávamos ter percebido o tom tedioso e descrédulo do pai (este é o primeiro filme de Tarr com – ótimos – atores profissionais) ao narrar essa pequena saga para constatar que ela cada vez faz menos sentido para ele, afinal há uma contradição radical entre ela e o cotidiano da família focalizada no filme (como em qualquer filme “realista social” que denuncie o dia-a-dia estafante de um “capitalismo industrial” que já começa a ficar para trás). No entanto o pai, essa pessoa pré-fabricada a que o título se refere, repete maquinalmente sua saga de economia-política. O que The Prefab People consegue mostrar contundentemente é isso: impor um sistema social “de cima” não adianta (não adiantou). A mudança (Tarr, que queria ser filósofo, nunca cansou de procurá-la) deve estar localizada em outro lugar.

O mérito do filme, então, pode não encher os olhos de muita gente, tal o desgaste do debate sobre o colapso socialista e a queda das utopias (onde procurá-las agora? Existem?) na cultura ocidental. O filme pode então apagar-se ao ser visto isoladamente, mas, por outro lado, também pode ganhar um brilho interessante se for considerado dentro da trajetória cinematográfica de seu diretor – e aqui temos que ter cuidado com nossas próprias teleologias “auteurais”. Com esse cuidado, consideramos improdutivo estabelecer uma quebra radical demais na carreira de Béla Tarr: a fase quase ingênua do “realismo social” (que teria um fim com este The Prefab People) versus a revolução estética completamente diferente e criativa que influenciou uma parcela assustadora do cinema contemporâneo (Van Sant sendo um em um milhão). O valor de The Prefab People é ver como nele Tarr já estava buscando aquele sentimento de utopia que se perdeu de maneira melancólica, em nossa época, na relação das pessoas com o mundo.

Como partir para essa busca? A resposta de Tarr, agora e então, é: recusando toda a “pré-fabricação” da decupagem do cinema clássico, que guia de antemão o sentido, fechando (embora, sobretudo no caso do cinema, nunca completamente) aberturas mais vertiginosas por parte da percepção. Ou seja: bloqueando a busca pelo desconhecido. Não é à toa que o “realismo social” de Tarr sempre foi muito comparado a Cassavetes, embora ele negue ter visto qualquer filme do diretor americano durante a realização de seus primeiros trabalhos (o que de forma alguma invalida a comparação, obviamente) e legue a Fassbinder sua principal fonte de inspiração (The Prefab People pode de fato ser visto como uma espécie de O Machão [1969] menos composto plasticamente). Em The Prefab People o máximo a que a montagem chega é um campo-contracampo nos diálogos mais intensos dos personagens. As cenas são filmadas com uma câmera na mão que busca a movimentação dos personagens no mundo material, sem o cerebralismo de uma decupagem prévia. Os cortes são quase elípticos (embora, é verdade, não muito ousados – sobretudo quando se repete, de maneira bastante datada, o plano inicial perto do fim), os planos-sequencia predominam (não com a duração radical da “segunda fase” de Tarr, mas quand même…). Béla Tarr, assim, tateia, ele não sabe onde buscar. O importante é não pressupor um espectador pré-fabricado. A situação está aí, opaca, triste, mas não se pode desistir.

Podemos ver, portanto, essas características da estética pela qual Tarr ficou conhecido mundialmente já ciderando a construção de The Prefab People. Tal é o brilho especial do longa. Como Cassavetes mostrou em A Morte de um Bookmaker Chinês (1976), o mergulho no real – “realismo social” que seja – é apenas uma questão de mise-en-scène: o que há de fato é um roteiro sendo filmado, sim, mas a questão é (Comolli não cansa de repeti-la) como pô-lo em cena de modo que deixemos que o mistério do real penetre nele. Tarr, sabemos, tem essa característica essencial, e já a notamos neste projeto de 1982: uma mistura desconcertante de controle firme e abertura vertiginosa. Afinal, apesar de toda a fórmula de “realismo social” de The Prefab People, temos no filme uma sequencia recorrente em Tarr: uma sequencia de canções melancólicas numa festa deprimida ou num bar impotente, que ao mesmo tempo parecem resumir o sentimento dos filmes e solapar qualquer significado fixo e fechado que se venha a concluir deles. Tal sequencia, em The Prefab People, demonstra, já, que a busca que Tarr empreende deve levá-lo a um exercício estético mais profundo. Mesmo que aqui ainda predomine, infelizmente, o melodrama hoje muito codificado da mãe de família que relembra quando o marido costumava ser mais romântico.

André Antônio


ISSN 2238-5290