Faz-se a luz.

Abrem-se os portões.

Irrompe a vida no gado que solenemente atravessa as primeiras imagens de Sátántangó.

Os minutos anteriores aos doze blocos narrativos, responsáveis pelo universo particular do filme, abrem o processo de Béla Tarr em apreender o caos.

O caos criador – pois de criação formam-se os 450 minutos desta experiência cinematográfica singular –, paradoxalmente, tem por princípio um espaço de destruição, assolado por ruínas que o tornam um lugar de ameaça, de violência consumada, anterior, não vista.

A coreografia da cena ironiza a economia do tempo.

Estabelecido está o rigor que enfrentaremos no decorrer da projeção, não apenas com constantes técnicas (plano-sequência, travelling), mas numa capacidade de extrair da desordem a ordem, do acaso o belo.

Controlar o mundo filmado sem que jamais se escondam as fragilidades da ambição.

A permanência da imagem como motivo criador.

Cada cena abandonada após a convicção de que não se desistiu.

Importa lembrar que o ato criador de Sátántangó é predominantemente físico, concreto, possível de ser apalpado pelos olhos.

Considerar Béla Tarr um adepto da metafísica é um equívoco que precisa ser, desde já, esclarecido e corrigido, para que não nos percamos na jornada porvir, pois não há ontologia que ultrapasse a matéria, e se algum conhecimento há nos caracteres em jogo, sua revelação atravessa necessária e unicamente os entes passíveis de captação.

Seguem os bois, esvazia-se a imagem.

<< VOLTAR


ISSN 2238-5290