Esvazia-se a imagem.

Na escuridão um conforto pelo que não se pode ver.

Da janela, o amanhecer ilumina a vida dos amantes, sua rotina, uma desconfiança.

Desde Condenação, não há um olhar de Béla Tarr que não se oriente por uma fenda, por uma porta, uma passagem no mundo, do mundo, para o mundo, onde perpassam as ficções desvendadas, perseguidas.

Histórias sob cortinas.

Separa-se o mundo num dentro e fora de contornos nítidos.

Dentro: moscas, pesadelos, banhos, sujeiras do amor.

Fora: porcos, chuvas, urinas, o apodrecer das lamas.

Uma voz narradora, que tudo sabe, tudo vê, ao contrário de nós.

Que não vimos o amor que acompanhou a noite, não ouvimos a batida dos sinos que despertou o dia, mas a ciência das palavras e dos gestos, esta ciência maior de Sátántangó, nos instaura a fé pelo acontecimento, pelo drama, pelo arcabouço mítico diluído na estrutura do universo.

Entrar e sair de um plano exige a perfeição do tempo, a condição para que cada movimento signifique o que era preciso, daí, a expressão de um ator, um verbo proferido, um movimento não prenunciado da câmera, alude ao não esquecimento da cena, à sólida materialidade desta, densa, desejada, conscientizada pelo corte.

Foi na janela, de novo nela, que esta compreensão do detalhe se fez, enquanto os personagens conversam sobre o dinheiro repartido, aquilo que lhes move o dia, somos opostamente movidos em direção ao desimportante detalhe de uma renda na cortina, que talvez importe mais para a imagem, para a irresoluta instauração criadora, do que uma injusta explicação dos fatos, dos eventos entrecortados e conectados pela dispersão das vozes, dos sonhos e lamentos, das palavras que, na boca do sofrido amante, encontram o calor do verso:

Descansarei meus pés todo dia, em uma bacia de água quente
Ou serei vigilante em uma fábrica de chocolates
Ou porteiro em uma residência de senhoritas
E tentarei me esquecer de tudo
Uma bacia de água quente e nada para fazer
Só contemplar a passagem desta vida de merda.

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ISSN 2238-5290