Contemplar a passagem desta vida de merda.

É quase de espera, de consternação, que as atitudes sobrevivem no povo de Sátántangó.

Com eles e por eles, a paciência revelada em virtude, mas também em praga, torna malditas as conseqüências de cada gesto, indignas, corrosivas no andamento da inspiração sufocada pelo dia-a-dia.

O retorno de Irimiás, homem perseguido, desperta os ventos.

Seu tempo não condiz, não harmoniza, resiste ao tempo confuso da vida, escorre pelas estradas como a areia de um maquinário em ferrugem, confunde as notícias recebidas, tempo que age, ilude, recria e destrói, tempo que paira sobre o movimento mínimo da projeção, que restaura a lembrança de um cinema perdido, tempo de Dreyer.

Pois se num mesmo corredor os relógios diferem, não há confiança.

Banidas pelo vento foram as horas, as dores, as mortes, e num espasmo de esperança, ressurge do humano a força que não se esqueceu.

Na lanchonete, indignado com uma canção de impossível alegria, Irimiás estabelece o silêncio, impõe com seu retorno uma retomada na consciência do corpo, da ilimitada espera, da plenitude distante, da vida que continua sendo de merda.

Dos corpos no espaço petrificado, do silêncio que lacra o espetáculo, Béla Tarr confere novo significado para o estar em cena, faz com que o movimento irrompa da carne, do corpo que, seja caminhando ou em repouso, pulsa novas verdades por somente existir.

Um corpo sempre é apenas um corpo.

Em todo apenas há sempre um mundo de variações.

Nos dois homens levados pelo vento, nos dois relógios que não concordam com o tempo, um reflexo dos pólos que permitem o cinema: o mundo e a imagem, vetores complementares, partes dependentes, que desafiam no que vemos a intenção de continuar indefinidamente.

A última caminhada, uma memória do início (do filme e dos tempos), reposiciona o drama sob um novo pacto nutrido pelo que se filma, por quem filma, pelo que se oferta filmado, como se já fosse possível prescindir do corpo, o espaço encontra o descompasso do tempo e a câmera ultrapassa os homens errantes, prossegue, só, na paisagem vazia que ruma ao eterno.

O desaparecimento é um encontro.

Perder a visão dos homens não importa em ausência.

Pois já não é preciso ver para conhecer um evento infindo.

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ISSN 2238-5290