É preciso ver para conhecer um evento infindo.

Mudar a perspectiva pode ser a única maneira de enxergar.

E dentro de outra casa, outro interior, com outro homem, recomeçamos do início.

O ponto de vista do ponto de vista.

Através de um binóculo, por uma janela, o homem observa o mundo, sem saber do desfecho que já conhecemos, e desta vez, o anterior foi visto.

Em espiral, revivemos o sonho do sonho, o espelho do espelho, e cada acontecimento vivido ganha novo lugar e posicionamento, como se somente agora a imagem ressuscitasse aquilo que não pôde esconder, permanecer em segredo, pois não há o secreto num mundo de homens que alimentam o desejo de enxergar, de guardar em si as vidas paralelas.

Na retomada do tempo vivido, na repetição dos eventos sob a reinvenção do olhar, passa-se a perceber que o projeto de Béla Tarr ergue-se sobre um abismo, como se mesmo a visão de algo não concretizasse o fato, encontrando na insuficiência dos sentidos, nos limites da percepção, motivo para estender o ato criativo ad infinitum.

Sátántangó resiste na percepção desafiada, na dúvida da encenação.

O homem do binóculo (o Doutor), em sua posterior disposição de escrever num diário o visto e o vivido, demonstra o impulso por algo que não é da ordem criativa, mas que guarda semelhanças no produto final do registro, pois registrar é repetir, é iludir a memória, é representar algo que de tão próximo ainda pode guardar vida.

Mais uma vez os porcos, as chuvas, as urinas, a podridão das lamas.

A queda do homem.

Estendido no chão, sozinho, o Doutor sofre a dor do acaso, do desequilíbrio, aguardando a reposição das forças para se reerguer.

Num dos momentos mais asfixiantes da jornada, a vulnerabilidade de um corpo desamparado, ofuscado pela fraqueza dos membros, impossível de ser abarcado num só plano, e o agônico travelling que o percorre dos pés à cabeça, acompanhando sua tênue respiração, ilustra um cinema que sofregamente aguarda porque precisa encontrar fôlego para manter-se vivo.

A última caminhada, uma memória, reposiciona o drama, ruma ao eterno.

Como se a distância tocasse e comprovasse o que não pode ser testemunhado de perto.

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ISSN 2238-5290