Perto.

Aproximam-se as chuvas interiores.

Irimiás e seu amigo já chegaram ao povoado.

Perto está a destruição do mundo e de tudo que nele há.

No botequim, refúgio dos moradores e de sua tristeza, uma velha bruxa convoca todos ao arrependimento, discursa no centro de interesse da imagem, seduzindo para que sintam o horror da proximidade, o espanto da aproximação e rememoração do caos, no mandamento irrevogável:

Leiam o Apocalipse.

A referência ao temido livro sagrado, oportuna duas constatações sobre Sátántangó: primeiramente, a evidência de um imaginário enraizado no universo do filme até a base mais sólida de sua estrutura, o imaginário bíblico, recorrente em cada minuto de projeção (para não dizer em cada peça da filmografia de seu diretor), seja em temas, mitos, verbos, como na própria progressão elíptica e espiralada da narrativa, repetida, intratextual, perpetuamente cíclica; em segundo lugar, a apropriação de um temor escatológico, que delimita todo o território filmado à beira constante de uma catástrofe ininterruptamente em prenúncio, suspensa como por um fio que pode ser rompido diante de apenas uma respiração incontrolada, pois deve-se lembrar mais uma vez, justamente por consistir num filme sobre a criação, a gênese, Sátántangó também se configura como um retrato do fim, do juízo, do irreversível caminho escolhido pelo homem.

Um cinema de corpos não pode ser outra coisa senão um cinema de terra.

O cheiro da terra não pode ser outro senão o cheiro de Deus.

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ISSN 2238-5290