O cheiro da terra não pode ser outro senão o cheiro de Deus.

E da terra vem a traição da fé.

Béla Tarr tinha plena consciência do risco que era fazer um filme como Sátántangó, esteticamente, politicamente, economicamente e até mesmo moralmente, mas nenhum ‘capítulo’ de sua obra passou por cima das conseqüências como este, da menina Estike.

Enquanto espera que cresça uma árvore de dinheiro, plantada pelo próprio irmão, Estike se conscientiza de sua humanidade à medida que brinca com um gato e ironicamente descobre:

Posso te fazer o que eu quiser
Sou mais forte que você

Na hedionda brincadeira com o animal indefeso, ela o estrangula, o sufoca, aperta-o dolorosamente parecendo apreciar entre as mãos a possibilidade da morte, o controle do fôlego, rolando na terra, levantando a areia, originando o mal.

O interminável massacre é intensificado pela justa dimensão do tempo com que Béla Tarr imprime sua marca particular.

Só aqui fica claro que há muito o massacre começara, contra o tempo, e em toda essa dilatação, ocultava-se um dos mais terríveis exemplares do cinema da crueldade.

Mas a morte não vem pelo olhar.

Não poderia ser pela destreza de um gesto que o pobre gato encontraria seu fim, não, pois no cinema de Tarr os piores eventos são aqueles que não podem ser visualizados, apreendidos pela distância da tela, pelo ajuste do foco.

É com veneno que ela sacrifica o animal, veneno branco, não nomeado, droga que não tínhamos como saber presente num leite que também é branco, inconformado, distante de qualquer resquício de inocência.

Como todos os outros seres de Sátántangó, Estike é um elo.

Ponto de ligação para episódios pregressos – no encontro com o Doutor – e futuros – na visualização da dança no botequim –, a menina é como uma aliança involuntária, manipulável por um horror maior, e com isso, atesta-se o arbítrio como um tema singular de toda a jornada.

Não há fim no suicídio.

E por mais que ela tenha aprendido, ao descobrir-se roubada pelo irmão, de que também existem coisas mais fortes do que ela, envenenar-se não descosturou a fé outrora instituída na terra, no ventre que acolheu suas preciosas moedas, no cheiro que foi sentido enquanto a aranha trabalhava.

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ISSN 2238-5290