A aranha trabalhava.

Elas teceram suas teias em cima das taças, copos, cinzeiros,
ao redor das patas das mesas e cadeiras.
Então, com fios secretos, ataram-nos (…)
Teceram uma teia sobre o rosto dos adormecidos, seus pés, suas mãos, (…)

O mesmo botequim de outrora, lugar estranho, decalcado no espaço, como uma espécie de outra dimensão, outra realidade.

Todo o frenesi da dança, o desenrolar da orgia a que os sobreviventes se entregam histericamente, pode, à primeira vista, soar incongruente com as coisas já estabelecidas, impressão diluída pela continuidade, pelo prolongamento quase insuportável da coreografia repetida, exaurida, lacerada pelo esmagar dos corpos.

Cada passo do tango, cada nota da melodia, situa o prazer na mais profunda dor.

Há um movimento cósmico.

E se o rosto – agostiniano – da menina Etike comprova a simultaneidade do tempo, destruindo a condição de um passado ou futuro, dançamos neste botequim a mesma inspiração que abrirá Werckmeister.

Pode-se mesmo dizer que tudo o que Béla Tarr filma em sua vida é um longo e interminável balé, continuações de um mover original, pois ainda que não dancem os entes filmados, não há câmera que fuja ao ritmo primeiro.

Suspender o tempo, esculpi-lo, já pode ter sido em Tarkovski missão para santos.

Hoje, é de Satã o trabalho.

Quando a dança acabar, a música cessar, ainda existirão as aranhas.

Não se pode mensurar o impossível.

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ISSN 2238-5290