Não se pode mensurar o impossível, não se deve reverter o milagre.

Agora, num movimento oposto ao tempo em Dreyer, ignora-se a ressurreição.

Luto.

Com a palavra mais eloqüente da jornada, o falso profeta inicia a sedução, olha fundo, fala no peito, toca em cada pessoa com a voz, redime a infância (Etike) e restitui a culpa à ausência dos que agora se arrependem, atentos, desejosos por encontrar num último apelo a salvação.

Como os demais, nós também entramos no jogo, compramos a ilusão cedida por uma imagem comparsa do discurso proferido, sem pudor de aproximação no plano junto ao corpo de Irimiás, seu rosto, pele, voz.

Close: concentração de mundos, contorno de superfícies que resistem.

Na ameaça única do que é aparente, Béla Tarr proclama o cinema em sua origem, alicerçado no ilusório poder da crença no visível, no ente que se permite apreender, no rosto a que suas imagens se comprometem; ele sabe do poder de convencimento que uma fronte tocada possui, e faz do toque uma extensão do universo, um eco da criação.

Que os mortos enterrem seus mortos.

Quando a impossibilidade do milagre traduz-se na inconcretude da satisfação, Irimiás encontra o ponto de manipulação das vidas, dos desejos e sonhos mortos, do anseio por um lugar de paz, onde a verdade não se limite a palavras vazias.

Utopia.

Idealizar uma sociedade modelo é a resposta que se quer ouvir.

Não precisar do dinheiro, desapegar-se das ambições, assim os habitantes são convencidos a ofertar não somente sua herança, mas suas vidas e futuros.

Num ato de fé, partem rumo à Terra Prometida.

<< VOLTAR


ISSN 2238-5290