Qualquer palavra é excesso.

Todos os recursos utilizados por Béla Tarr na constituição de Sátántangó, especialmente os planos que envolvem o personagem de Irimiás, convergem para uma espécie de preocupação retórica da imagem, refletem a capacidade de persuasão que o homem possui quando munido das palavras certas, no momento certo.

Desfigura-se a veracidade dos acasos da vida, o ritmo natural das coisas e das ações.

No exemplo do povo convencido pulsa um movimento predestinado.

O falso líder, encarnação do Cristo, possuía um carisma, uma sincera esperança nunca questionada, vendo ruir suas profecias no momento em que as palavras implicam em excesso, em demasiada intromissão dos valores cridos e novamente agarrados pelos que levantaram a dúvida sobre a Fazenda e sua questionável posição de pólo restaurador da fé.

Duvidar é ater-se ao essencial.

A ilusão do paraíso, a idéia de um mundo perfeito pregada por Irimiás, não deixa de ser reflexo de uma das convenções básicas do dispositivo cinematográfico.

Há no cinema uma possibilidade de conversão do erro em bênção muito maior do que no mundo por ele representado.

Béla Tarr sabe disso tão bem, que, na mesma proporção de seu protagonista, faz do discurso (filme) uma dimensão do hipnótico, do que não pode ser evitado pelos olhos após um primeiro contato, o criador imediato da relação nutrida com o espectador.

De todos os paraísos oferecidos pela sétima arte, o de Sátántangó é um dos poucos que não esconde o lado avesso da perfeição, pelo contrário, põe em evidência a ruína e a decadência, para, através delas, estabelecer o seu poder de sedução e de conscientização do caráter de verdade que o ilusório traz.

Aceitar o outro lado da fé é missão para os escolhidos.

Enxergar o fato é não acreditar nele.

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ISSN 2238-5290