O controle da luz.

Nada pode definir melhor o cinema.

Quando os Lumière iniciaram suas experiências, filmando o mundo e guardando na película uma parte da vida comum, tomou forma uma nova apreensão da luz e da sombra, do negativo que permite a captação de contornos e sentidos clamando pela representação.

Naqueles anos, inúmeras realizações jogaram com a percepção do movimento em chiaroscuro, e alguns feitos notáveis dos pioneiros ousaram concentrar a dispersão de luz a um ponto onde tudo que restava era a escuridão.

Era quando a sombra consistia numa opção.

Hoje, é a treva uma necessidade.

Um novo céu e uma nova terra.

Retorna-se ao Doutor (13 dias depois – 13 links, 13 vidas?), à sua bebida, observação, seus registros pessoais, e enquanto os interesses e motivações vão acumulando, finda-se a guerra.

Da chuva na janela, já não há mundo que possa ser visto, desintegra-se o lado oposto, e junto com a desarticulação das vidas narradas, uma nova carência possui a imagem.

O final de Sátántangó, mais do que um recomeço, encontra em seu caráter bíblico a causa do que, na aparência, pode soar como uma autodestruição, mas é impossível ignorar que a coreografia original se perpetua para muito além do que os olhos podem guardar.

Dissolvidos os pontos de vista, não se pode falar de um fim.

O caos, a predominância da ruína, encontra no drama a liberação de seus últimos males, e um estado de horror se estabelece à medida que materializam-se os objetos da fé.

Prossegue a caminhada, e agora, não apenas ouve-se o despertar dos sinos, como a decadente condição de seu ecoar é revelada pela torre que não alcança os céus.

Lacrar-se numa clausura e aprisionar a imagem, encontrá-la no limite da compreensão, esperando, mais uma vez, que o impossível se cumpra.

Uma revolução cósmica.

Fecham-se os portões.

E a luz se vai.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290