As Harmonias de Werckmeister (2000, Béla Tarr)

Eis o grande exercício de Béla Tarr: ser metafísico sem ser transcendente. Nada melhor que o decorrer duma obra sua para observarmos um novo decreto de comunicação, onde são trocadas as tarefas que cabem a um deus e a um homem, concebendo aqui, Bèla Tarr como deus, o protagonista de sua obra como homem, e as tarefas como perspectivas (inicialmente do homem) e atmosfera (inicialmente de deus).

Em As Harmonias de Werckmeister ocorre, no entanto, não o contrário, mas a unilateralidade. Béla Tarr (Deus) põe ao redor do homem (protagonista) resoluções divinais de perspectiva e atmosfera – a perspectiva do éter analfabeto e atmosfera do éter defectivo. “Deus está se indo porque não é visto ou está vindo porque falta quem o veja?” Com essas duas afluências num mesmo homem, seja talvez esta a pergunta nele. Fosse então o homem impingido na tradicionalidade, ou seja, a perspectiva mais cá, e a atmosfera mais lá, a pergunta talvez fosse: Deus está se indo porque é visto, ou está vindo porque vê?”

UMA PERGUNTA?

A obra de Deus pode ainda ser grandiosa, se um dia for estendida aos nossos sentidos?

Se pensarmos na baleia, grande símbolo do filme, não extrairemos uma resposta, e sim uma pergunta; não a mesma (que ponho aqui como transcendental), mas uma outra (que ponho aqui como metafísica): “nossos sentidos, ao terem contato com alguma expressão exterior do que nega traduzibilidades no nosso interior, emocionaria a alma através da carne?

DEFINIÇOES PESSOALÍSSIMAS

Transcendental: o que nos vai alem, passando-nos.

Metafísico: o que nos passa, ficando-nos.

Como se vê ao final do filme, a união organizada para o íntimo de János, homem ( protagonista), transforma-se em fonte duma moléstia degenerativa. E o que leva a essa transformação está no efeito gerado pela atitude de Béla Tarr quando ao metafísico e o transcendental. Lendo então essa atitude: capacidade de Béla Tarr manusear, em expressão anti-semântica, o substrato vertical que lha chega. Repousada ou profanamente, ele invoca uma plataforma divinizada, tira-lhe o sucedâneo místico, dizendo-lhe uma carga dialética, rodeada dum assombro, duma dignidade cósmica e indigesta. A observação disto pode ser feita, sobretudo, pela visão do helicóptero, cuja estrutura (máquina), parece não sofrer o contraste que seria imposto pela atmosfera: o helicóptero é divinizado: arcanjo que conduz à insânia.

Bruno Rafael


ISSN 2238-5290