Condenação (1987, Béla Tarr)

Uma coisa há de ser descoberta, em Condenação: o ser humano é presa da servidão a si mesmo, do alimento de sua própria ruína. Está aí o reencontro com o inferno e o céu predominantes no filme, essa terrível e bela tomada de consciência que aparecerá no apocalíptico final. Porque tudo não passa de um olhar quase divino sobre a destruição das coisas e sobre sua infindável permanência espectral.

Karrer, o protagonista, é presa de tudo o que se chama amor e doença. Ou até mesmo vício que, aqui no filme de Béla Tarr, pode-se dizer que é aquilo que motiva o grande vazio das paisagens e das relações humanas, da pré-existência do fracasso que já é filmado em seu resultado constante (a aparência das coisas, a decrepitude), um mundo destituído de tudo, de luz, de novidades, da “beleza do capital”. Estado indomado, do mesmo modo que todos os mundos dos filmes de Béla Tarr não clamam por domínio nem por atenção. Eles sobrevivem impassíveis a qualquer ato, pois parecem ser muito velhos, alimentando-se de toda e qualquer desordem para se fazer mundo e para se fazer iniciação de um milagre impressionantemente instalado entre o caótico e o material.

O plano que abre Condenação por um instante exclui Karrer – muito embora ele seja ali um elemento importantíssimo para uma espécie de “surpresa em quadro” – não só das coisas que se movem (uma espécie de teleférico ao fundo, se perdendo numa neblina, um efeito de reenquadramento que coloca as máquinas “dentro” do ouvido do protagonista), mas da própria composição inicial, de uma impressionante natureza morta, composta por este tipo de objeto eletrônico e hidráulico movendo-se sem que se filme o desejo que o motiva a mover-se, a não ser, talvez, o estético. É o desejo por uma produção de imagens incríveis para o colapso. Em seguida, Karrer ganhará um plano só seu, enquanto faz a barba. Mas o que ele verá é apenas seu rosto refletido no espelho, nada mais de outro espaço que o receba e o conforte.

Esta “natureza-morta” que recebe inesperadamente o homem, estará ainda mais desacordada do que a inconsciência que parece mover (muito pouco) as coisas e objetos do filme. Entretanto, este homem é uma figura que assiste, apenas, e é a princípio um espectador no crucial plano-sequência dentro do bar. Não se trata de um agente importante, visto que é uma figura que há sempre de perambular por uma Hungria antes de tudo cinemática, errática e totalmente destruída pelo socialismo (ou pelo “antigo” realismo socialista dos primeiros filmes de Tarr), escondido por entre paredes e pelos espaços entre as gotas de chuva. É um homem que está sempre entrando por portas (aquela do bar Titanik), sempre forçando entradas (naquela porta da mulher que ele ama, mas que o despreza e o expulsará) ou sendo, forçosamente, obrigado pela suposta doença emocional que o corrói (a servidão), a entrar numa delegacia e, enfim, a agir (quando resolve entregar, covardemente, o marido da mulher que ama à polícia, num plano de grua que não pode nos esconder nada).

Daí que o filme de Tarr realmente venha a merecer um olhar especial: fala-se dessa figura impotente, desse homem que não fará nada corretamente, que não imprimirá sua marca nem sua identidade – há tempos elas já foram substituídas por um estado de coisas assustador, pois imutável, pesado e lento. É um homem corrompido, desde já, por tudo o que lhe é humano demais, entregue demais à impossibilidade da cura e da salvação. Sujeito perdido, rendido ao mundo, à doença e, sobretudo, à imobilidade que o próprio mundo criado por Tarr constrói. Sabemos: é impossível mover-se pela chuva constante, pelos espaços inabitados, pela falta de um ponto de fuga. Nunca, jamais, Condenação seria um filme de horizontes. Mas é um filme de palavras, de advertências daquela fantástica senhora que sempre lega pequenos direcionamentos/conselhos a Karrer, da quase-lenda e do quase-presságio que se cumprirão amargamente.

Surge aí a opção de Tarr fugir do tempo, encarar um universo fechado para nós de fora e para eles (os personagens, ou melhor, as figuras) de dentro. O tempo que nos importa, tal qual aquele fechado num quarto em Hotel Magnezit, é o de um despertar cruel, infinitamente errado, e é também o tempo do clima, do mentiroso fim de um mundo que já parece morto, mas de fato jamais enterrado. É um universo onde sobreviver depende exclusivamente das capacidades da doença, da deterioração, da ação da chuva, da tentativa de fugir dela, que está impregnada até nos ossos da imagem.

Pois se no seu texto sobre Sátántangó, presente nesta edição, em certo momento Fernando Mendonça fala sobre o “caos criador”, aqui em Condenação o caos é dessa mesma natureza, aquela onde todo o cenário não passa de escombros organizados e abandonados para a câmera e para a desgastante missão da tal servidão humana, tão violenta e sem conciliação, tão divinamente pura e tão belamente repugnante. Estamos, como já foi dito, ao mesmo tempo no céu e no inferno da percepção de uma figura num mundo, não?

Só nos resta saber, em Condenação, o que é de fato a matéria (o fim de tudo, o começo de tudo), e também saber que todo caos, em Tarr, acarreta num sentido de deterioração inquestionável. Afinal, retomando o texto do Fernando, “não há ontologia que ultrapasse a matéria”. A vida sobre o mundo só é plena quando está morta, ou quando está plenamente doente para poder ter ou não fé. Eis aí o grande milagre do cinema de Béla Tarr, filmar todas estas coisas.

Ranieri Brandão


ISSN 2238-5290