Family Nest (1979, Béla Tarr)

Rostos magoados

O realismo do corpo, da carne por entre as flexões faciais em Family Nest surge como um duplamente impressionante atestado: em nível social da crise da casa própria na Hungria da década de 1970 e em nível cinematográfico do talento de um Béla Tarr de então apenas vinte e três anos domando com qualidades e deficiências as convenções da arte que se propôs a fazer – e para além das reticências e dos equívocos momentâneos, Tarr assume alguns riscos com a segurança de um veterano (Cassavetes?), ao impor em Family Nest a suplementação do corte-diálogo (cenas de tomadas verborragicamente imensas contrabalanceada com cortes abruptos segundos depois) e do firme equilíbrio desse cinema vérité que o possuiu com tremenda força até Almanac of Fall (1984) e sendo completamente (e para sempre) metamorfoseado desde Condenação (1988).

Family Nest é a história de Irén (Laszlone Horvath) e Laci (László Horváth), um jovem casal que, no auge da crise húngara das casas próprias se vê obrigado a dividir seu pequeno apartamento com os pais de Laci, e então é nesse nicho familiar que emerge para confronto no filme e desde cedo na carreira de Béla Tarr a questão da opressão – e aqui mais do que a opressão social vem também a opressão familiar, da figura masculina que suplanta a feminina, nessa coacção emocional que primeiramente implode e os seus estilhaços encontram sempre Irén, pois sua maldição é aquela que está hospedada no mesmo teto, no mesmo ”corpo” habitacional, o pai de Laci. Ele acusa Irén de ser promíscua, manipuladora, e utiliza de sua masculinidade (a figura falocrática como o semideus de todas as relações possíveis) para compartilhar a primeira opressão do filme: a do sexo masculino que subtrai o feminino (evidenciado em inúmeros momentos, cuja sua maior grandeza reside na cena de estupro que Laci participa), que tenta bruscamente eliminar suas possibilidades de revolta, porque o desespero de Irén raramente é compartilhado com sua família, porque esse nicho familiar é o motivo de sua dor maior, logo seu cano de escape para tanta frustração e mágoa vem encontrar em uma amiga em comum da família (cujo pai de Laci já tinha tentado impor sua “masculinidade fascista”) uma tentativa de alívio – e alguns anos depois, para a opressão, Tarr utilizaria inúmeras vezes a loucura como único meio possível de fuga.

Se Family Nest peca em momentos cruciais, é muito mais pelo ímpeto de um cineasta que ainda está descobrindo o seu modus operandi, que exala essa sensibilidade maior do que as suas primeiras imagens puderam comportar, porque Béla Tarr neste filme e nos posteriores até o meio da década de 1980 utilizaria ainda as influências dos mestres do cinema que ele aprendeu a amar: dos neo-realistas italianos à Nouvelle Vague, declamando ainda no mesmo tempo para o Free Cinema britânico, para John Cassavetes (Faces, faces, faces… grita Family Nest do primeiro ao último plano) e sem esquecer das origens húngaras, de Jancsó a Szabó(principalmente os seus primeiros filmes). Não se esquecendo de todas as possibilidades de cinema citadas acima, desde Condenação Tarr vem tecendo um estilo hipnótico de filmar (às vezes lentamente doentio, um louco que parece sempre tentar oprimir o tempo), que por mais que tenha sido erguida em uma galáxia só possível a esse cineasta húngaro, a influência de Tarkovski salta aos olhos, mas se para o gênio russo o cinema era uma constante tentativa da imagem-vida de trespassar o tempo e o espaço, para o diretor húngaro o cinema parece sempre ser (ainda que com divergências estéticas entre seus primeiros e mais recentes trabalhos) uma possibilidade de sustentação do homem perante o tempo e como esse confronto dá margens à loucura mais devastadora: a que nasce da impossibilidade das relações humanas (o homem que se transforma em um cão ao fim de Condenação por não ter a mulher que ama talvez seja a imagem mais poderosa para esta impossibilidade dentro do cinema de Tarr).

O mais valioso após ver um filme como Family Nest é ver o quão um diretor pode se reformular com o passar do tempo (um confronto íntimo e especial para Tarr), porque os rostos magoados dos personagens desse filme são de certo modo os ancestrais das loucuras estratosféricas dos personagens dos filmes posteriores do cineasta. Há essa melancolia, esse estado das coisas que Tarr não pode mudar: seu cinema sempre será sobre a dor da opressão, do estar louco (de um mundo opaco, mentiroso), do estar só, da própria solidão em si e por fim.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290