Prologue (2004, Béla Tarr)

Só resta esperar…

Prologue é mais do que a espera do passar do tempo. É o silêncio que faz com que o não-dito signifique o silêncio das palavras, dos ruídos não exteriorizados pelo som humano. A própria linguagem implica o silêncio – pois é ele quem vai legitimar todo o sentido do discurso. O discursivo, por tanto, em Prologue (e em boa parte no cinema de Béla Tarr) é essencialmente a imagem-silêncio sendo hipnotizada pelo uso diegético de uma música de Víg Mihály (compositor braço direito de Tarr), que já tinha sido usada primeiramente em Almanac of Fall (1984).

Num traveling fabuloso, nos é apresentado homens em uma fila e seus rostos magoados antecipam algo triste: eles estão lá à espera de pão e café. Uma tristeza que potencializa através da imagem projetada por Tarr, uma espécie de vidas que se autoflagelam à espera do tempo impiedoso. Essa tortura constante do homem jogado à margem (um tema recorrente dentro do cinema do cineasta húngaro) ganha uma beleza melancólica em Prologue, porque o olhar sem rumo, as cabeças cabisbaixas não só não enganam como explicitam o destino doloroso daqueles homens. É no fundo, o filme, uma crítica mitigada ao homem moderno, a Europa moderna incapaz de abranger a emoção, num círculo cada vez mais fechado, a elite camuflada em seu indolor universo, arremessa a “escória”, a subjuga e animalizando-a desumaniza o espírito humano (um terreno fértil para a loucura?).

Aqueles homens na fila são as reticências do cinema de Béla Tarr. Quase uma desistência de confrontar o tempo. Estão ali, entregues, exaustos, exauridos de combater aquilo genuinamente invencível: o tempo.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290