The Outsider (1981, Béla Tarr)

Um violino e a loucura

The Outsider começa no local que é uma estrutura sensibilíssima dentro do cinema de Béla Tarr: o hospício, pois para Tarr a loucura não se faz perante ao físico, ao homem, é antes de tudo no tempo remoto (que aniquilou), no presente (que aniquila e desumaniza) e no futuro (a loucura como único meio possível à opressão?) aonde ela encontra seus fertilizantes e torna-os panoramas irreversíveis. The Outsider, L’étranger, o homem como ruído inacabado do tempo e da própria humanidade: deslocado e incapaz de se auto-sincronizar com o mundo à sua volta, András (András Szabó) é um legítimo personagem tarrnaniano (oprimido pelo mundo, melancólico, um “louco” que vagueia por um mundo só possível aos seus olhos) em um filme cuja estrutura, por sua vez, não acusa o Béla Tarr mais conhecido de seu nicho de admiradores: porque o Tarr da cadência quase congelada, do apuro estratosférico entre tempo-imagem, entre o silêncio fundador e a implosão imagética de seus travelings, só vem mostrar suas verdadeiras armas a partir de Almanac of Fall (1984).

É necessário ter cuidado, pois The Outsider em nenhum momento me pareceu um filme menor do cineasta húngaro, mas sim uma espécie de exercício de autodescoberta entre o artista e o tempo: o primeiro avaliando os seus estágios estéticos e o segundo legitimando esses estágios e alçando-os em um universo que, encontrada a “forma ideal”, parece existir como uma contínua corrente cinematográfica só possível a essa máscara cinematográfica tarrnaniana efetivamente solidificada desde Condenação (1988). Os filmes de Tarr sempre tratam de um modo ou de outro, com alcances maiores ou menores, sobre aquilo que para o cineasta é a única coisa eternamente genuína: o tempo, o grande herói da loucura.

E quando András, tardiamente encontra um irmão que ele jamais pensava que poderia possuir então a realidade vem exigir o seu espaço enquanto parte da relação do personagem às formações discursivas (e András está sempre cadenciando seus diálogos, suas relações com os outros) tem o silêncio como componente essencial, pois sempre há nesses espaços de silêncio a história particular do ser. András, o outsider, parece realmente encontrar a felicidade, o gozo quando está tocando seu violino, e o seu silêncio (e as conseqüentes possibilidades afetivas) parece legitimar o tempo, essa loucura invencível.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290