Biutiful (2010, Alejandro González Iñárritu)

Biutiful pode até parecer mais um filme da onda espiritista que tem se propagado na indústria cinematográfica mundial, quando se lê a palavra médium na sinopse. Engana-se. O novo filme do diretor Alejandro González Iñárritu demonstra logo nos primeiros minutos que algo ali é bem diferente, podendo até enganar com o funeral das crianças. Tudo ao redor parece ser o caos: prostituição, tráfico de drogas, crime organizado, corrupção; tudo está ali escancarado para qualquer um que se comprometa a prestar alguma atenção no longa. O próprio protagonista é representação de toda aquela convulsão que confunde o velho continente com um Rio ou São Paulo. O título talvez seja a melhor representação de algo que existe mas esta errado.

Iñárritu nos conta a vida de um médium que parece não querer mais seguir a tarefa espiritual e prefere se corromper no submundo. Como em outros filmes do diretor, o protagonista é apenas uma peça central de um jogo bem mais complexo. Deparamos-nos com a vida de um casal pobre de africanos (que vive da venda de drogas e de produtos piratas) e de dois chineses que mantêm negócios sujos de pirataria utilizando-se do trabalho escravo de outros chineses ilegais e da venda desses produtos por imigrantes africanos. O mediador disso tudo é Javier Bardem (em ótima atuação), nosso médiun e protagonista de tudo isso. Com o dinheiro que ganha sustenta dois filhos e vive uma relação conturbada com sua ex-mulher. O personagem de Bardem parece ser um homem que aceita tudo isso já dito e se sustenta a partir dessa noção. Se afasta da tarefa de médium e pouco vive disso.

O que o diretor parece focar não é na questão da religiosidade, aparentemente ela é deixada de lado pra discutir questões bem mais externas ou ainda internas. Se for explícito o cotidiano desumano vivido por pessoas em pleno primeiro mundo, o filme leva a uma questão intima: a memória. A maior preocupação do protagonista surge quando descobre estar com câncer e passa a temer as lembranças que seus filhos terão dele. Ao mesmo tempo nos deparamos com a Espanha e vemos da janela a bela catedral da sagrada família de Gaudí, mas tudo envolta é miserável e desumano. Os problemas sociais circulam o tempo inteiro, sem demonizar e nem condenar alguém. Iñárritu procura o que é humano em cada personagem e o exibe na tela. Ainda que desprezamos o que fazem, não os condenamos, pois parece tudo inevitável.

Ainda que Biutiful fuja do rótulo dos filmes sobre espiritismo, não consegue fugir dos velhos artifícios do estilizado cinema “artístico” europeu. Os cigarros, os momentos de reflexão dos personagens e todos os efeitos de câmera parecem manter a velha receita de bolo ganhador de prêmio. Mesmo assim Biutiful merece os méritos por sua visão sóbria do mundo pós-crise e do próprio subjetivismo religioso. O mérito ultrapassa o reconhecimento ao ator Javier Bardem, mas principalmente a forma sóbria com que Iñárritu conseguiu tratar de questões que tem tudo para cair no velho chavão tendencioso (questões sociais, fé, relacionamento) e conseguir um resultado que possa atingir o público sem querer impor seu ponto de vista, deixando esse quesito no imaginário de quem o vê.

Nuno Balducci

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290