Quando foi que nossas crianças tornaram-se adultas?

Não pretendo me utilizar da Psicologia ou de qualquer outra prática que pudesse me servir como tal, são somente linhas que provavelmente cederão à melancolia de pensar: como e quando foi que perdemos nossas crianças para o mundo (por vezes hostil) dos adultos? Ou o que não foi criado em nós para aceitarmos bem mudanças tão abruptas? Em nós, ou em mim? Tampouco trarei respostas ou perto disso, são só reflexões, advindas de um lugar que não sei explicar qual.

Estava eu em meu mundo adulto, descansando os olhos e a mente na varanda do meu apartamento, quando começo a escutar uma conversa mantida por vozes infantis, no prédio da frente. No começo não tentei me prender ao que elas diziam, ainda estava muito presa às minhas leituras e pensamentos atuais, porém, fui cedendo à curiosidade e à descoberta, coisas tão importantes e essenciais do mundo infantil. Não vi rostos, mas pude pressupor ter sido um diálogo entre uma garota de seus 10, 11 anos e um garoto mais novo, talvez com seus 6 ou 7 (pelo que já pude observar dos movimentos no referido prédio).

Elas não fantasiavam sobre qualquer coisa de seu universo, pelo contrário, o tema parecia realmente ser algo de muita importância, de muito instrutivo (não querendo diferenciar instrução de fantasia, mas fantasia de algo propriamente mais adulto). A criança mais velha (menos criança, mais “experiente”) tentava ensinar à outra algumas táticas de como conviver bem com uma terceira (uma garotinha super estridente, de seus 4 anos, a Luíza que já sabemos por seus gritos, berros e lamentos incansáveis – de longe, só conseguimos pensar “o que falta para essa menina é uma boa criação!”, como se estivéssemos livres de cometer os mesmo aparentes erros).

Vou chamar essa criança mais velha de “Marina” e a mais nova de “Pedro” (não se onde tirei tais nomes). Marina dizia: “Ela (a Luíza) é criança, ela não entende”. Não consegui conter o riso ao pensar no quase absurdo dessa frase, porém, muito engraçada pelo tom de seriedade entoado pela garota. Marina, quando foi que seus anos a mais lhe tiraram o status de “ser criança”? Ri ao pensar exatamente isso. E ela continuava “Ela não entende, ela só vai emprestar o ‘patinete’ quando se cansar de brincar. Quando ela brincar muito, você vai e pede, que aí ela dá. Mas se ela pedir de volta, você dá, porque o patinete é dela”. Pedro retrucou algumas vezes, muito insatisfeito com essa concepção quase adulta de que o que é do outro não se pode utilizar, de que algumas regras devem ser seguidas para que consigamos o que (tanto) queremos naquele momento.

Pedro só queria brincar com o patinete de Luíza, mas de acordo com Marina, ela não entende, porque é criança. Observar uma criança sempre nos coloca naquela posição de que estamos invadindo um mundo que não é mais nosso, que não entendemos mais suas leis ou funcionamento. Mas, na verdade, o mundo de Marina parece se assemelhar muito com o nosso, em que elaboramos rotineiramente táticas para uma boa convivência, um raciocínio mais adulto que, contraditoriamente, nem sempre conseguimos colocar em prática. Eu ri ao escutar o diálogo, mas depois me dei conta de que sorria não mais pela graça, então a graça cedeu temporariamente a uma leve sensação de melancolia, de perda.

O que eu estava sentindo que perdi? Eu nunca convivi com crianças, convivi pouco até comigo mesma para saber como é ser infantil (no bom sentido), então que perda era essa? Não se foi o egoísmo e a intransigência de Luíza que me levaram a ter essa sensação, ou a aparente maturidade de Marina, falando de um lugar que não era mais o mesmo de que Luíza falava e do qual Pedro ainda fazia parte, pois ele só queria brincar com o patinete e pronto! Eu não sei, realmente, mas de repente me dei conta do quanto aquela ideia nostálgica de infância parece fazer pouco sentido hoje em dia, pois não dá nem mais tempo de criar uma fase para a nostalgia agir no futuro, já que o futuro parece estar logo ali, quando as táticas de convivência do mundo adulto são fixadas também na infância.

Não sei o que escrevem sobre as crianças hoje em dia, não sei o que os estudos mostram, sei que o irmão do meu namorado disse que as crianças pós década de 80 não têm mais a resistência que as de antes, no sentido físico mesmo. Talvez isso nos fale de alguma outra mudança abrupta também, um lugar onde a contemporaneidade já conseguiu atuar. É fato que não podemos culpar as crianças nesse sentido, pois talvez sejam vítimas, já que foram os alimentos que mudaram e não sua constituição física, esta só acompanhou o movimento, a mudança. Hoje vemos toda a sorte de “insensibilidades”: Júlia é alérgica à lactose, Gabriela não pode ingerir nada que contenha glúten, Henrique não pode, simplesmente, se alimentar! Parece muita informação… E agora, exatamente, não sei mais onde pretendo chegar.

Eu não sei o que sinto por essas crianças, não sei o que sinto por mim enquanto criança. Sei que existe um lugar vazio em toda essa história, um lugar que não está mais sendo habitado (muito menos co-habitado) por alguma coisa. Talvez inocência, talvez ingenuidade, fantasia… São suposições. As regras do jogo não parecem mais ser as mesmas. Será que é muito radicalismo ou pensamento conservador? Prefiro pensar em preocupação. Preocupação é um termo que não pensava ser necessário aqui, mas agora percebi o quanto se encaixa. Acho que me preocupo com a Júlia, com o Henrique, com a Marina, a Luíza… De que mundo elas sentirão falta quando estiverem realmente numa posição de olhar de cima? Sentir falta parece ser sempre algo tão essencial, tão vital, de certa forma. A falta precisa ter o seu lugar em nós, em nossa constituição, para que nossos objetos de desejo precisem sempre ser reinventados e redescobertos.

Que algo falte para que não deixemos de buscar, de encontrar, por alguma coisa que talvez nem esteja ao nosso alcance, mas que simplesmente “é” e “está”. Luíza provavelmente consegue o que quer: todos a tratam como se andassem por entre ovos. Elaboram táticas para que consigam conviver bem com ela, sem que precisem ouvir seus berros e reclamações. Pensando bem, os outros podem até ganhar certo momento de calmaria, mas são egoístas com Luíza, que não produzirá anticorpos para a decepção, para a perda, para as coisas que não conseguirá ter. Ela talvez permaneça nesse padrão do grito, nem sempre soado através de sua garganta, mas sob tantas outras formas. Marina parece estar em outro patamar, ela já fala de barganha antes mesmo de saber o que é isso (ou será que sabe?), o que parece ser algo muito comum entre crianças, se juntarmos a isso a característica básica de perversidade (é comum também, só o termo que assusta).

Mas, enfim, o que quero dizer ou pensar a respeito é que nós, adultos, perdemos alguma coisa. E mais do que nós, elas, as crianças, se perderam de algo, deixaram algum fio solto, ou então o contrário, ataram forte demais algumas pontas desse emaranhado de linhas. É como se nada pudesse ficar solto, incompleto, como se tudo tivesse que ser resolvido logo no tempo certo, para evitar transtornos futuros e até presentes. O presente traz em si o passado e o futuro, e o passado das crianças ainda está muito colado a elas, o abandonaram precocemente por um futuro que deveria ser mais distante. Como as crianças de antes, o que elas respondem ao ser inquiridas sobre o que desejam ser no futuro é ser adultas, mas algumas dizem “ser grande”, como se só faltasse isso para lhe garantir a entrada de vez nesse mundo tão almejado: crescer. Elas já se sentem adultas, e nós, que nem sempre agimos como adultos e pensamos como tal, precisamos frustrá-las em alguns momentos, antes que seja realmente tarde.

Há algum tempo, a infância não existia como fase da vida, ela é, na verdade, uma criação da sociedade que abriu os olhos para o fato de que crianças não são adultos em miniatura, são crianças, simplesmente, que trazem não somente uma constituição física diferente, mas toda uma forma de se lidar e cuidar. Cuidar, verbo tão importante, mas que às vezes confundem com “excesso de cuidados” ou falta deles, por se pensar ser desnecessário diante da independência prematura que esses pequenos seres demonstram (uma falácia, na verdade). Tirem-lhes os trajes adultos, pois apertam, incomodam, por vezes suprimem o nosso ar. É necessário velar o sono infantil de nossas crianças, para que desfrutem melhor – seja lá do que – ao despertarem. Que possam dormir um pouco mais, tranquilamente, enquanto esse momento não chega.

Ana Clara Martins

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290