Do tempo embalsamado

A pequena obra feita por Godard para a divulgação de Filme-Socialismo (o trailer exibido em Cannes) deve ser guardada para sempre como uma digna peça de sua carreira. Nela, vemos a totalidade do filme numa velocidade de reprodução (x100) que concentra os 100 minutos de projeção em pouco mais de 1 minuto publicitário. Uma fração de tempo. A certeza de que nada veremos além do que já foi ofertado, de que não teremos surpresas, de que todo o interesse nutrido pela imagem de Godard baseia-se no já visto.

A imagem das coisas é a imagem de sua duração, afirmou Bazin num definitivo ensaio sobre a ontologia da imagem fotográfica¹. Em sua reflexão, o crítico encontrou sentido para a imagem no simbolismo dos rituais de mumificação egípcia, no desejo tão humano de alcançar o domínio do tempo e da morte, o controle da degradação natural das coisas. Contestada por diversas correntes teóricas, inclusive do pensamento cinematográfico moderno, a tese de Bazin parece, hoje, com a nova experiência de Godard, encontrar a aplicação e validade necessárias para que se reafirme o desejo primeiro da imagem: guardar o tempo, ou em suas palavras, embalsamá-lo.

Motivo corrente para o cineasta francês, as formas de representação do tempo histórico sempre estiveram no centro de investigação estética que ele vem construindo há mais de meio século. Questionar a veracidade da imagem e, principalmente, da duração que ela exerce na consciência coletiva das culturas, é o que ainda hoje (e talvez mais do que nunca) justifica a necessidade de seu olhar dentro de uma práxis contemporânea que não sabe o que fazer com a exaustividade imagética que vem sendo, a cada dia, vivenciada ao extremo. Para Godard, importa mais organizar as imagens já existentes do que criar novas imagens; ‘criação’, aliás, é um termo que lhe interessa muito mais no âmbito do significado, da visualidade posterior ao registro. A dessacralização cinematográfica, partindo da compreensão básica de que nada se cria em nenhum dos meios artísticos, prossegue como uma conseqüência natural de sua lapidação de imagens, de sua maneira tão particular de ler aquilo que já foi filmado, fotografado, escrito, ou simplesmente imaginado pelo homem.

Filme-Socialismo, alguns podem dizer, é o filme-colagem mais previsível que o diretor de Histoire(s) du Cinéma (1988 – 1998) poderia fazer. Eu diria mais: todo Filme-Socialismo já estava presente em À Bout de Souffle (1959), na maneira como o questionamento da autoria se colocava dentro da reapropriação de mundos outros, atravessando recitações de Faulkner, encenações de Picasso, Klee, Matisse e até mesmo do rosto de Bogart. Mas o que seria a obra de Godard senão uma grande e colossal dúvida a respeito do previsível no cinema? Desnudar uma imagem, um clichê, uma certeza, nisso consiste sua noção de montagem. E não há nada mais intenso na colagem de Filme-Socialismo.

No mesmo ensaio, ao abordar o caráter de transferência da realidade sofrido pela imagem, Bazin introduz nos níveis de reprodução/representação o conceito de uma psicologia da relíquia. Subtrair do tempo sua corrupção é o que permite à imagem um fascínio de realidade, de convicção no visto e na permanência de sua memória. Nesse sentido, o filme de Godard ambiciona claramente se estabelecer como a relíquia de um tempo, o souvenir de uma expressão; mais uma vez, não pelo que ele inventa ao nível da captação de imagens, mas pela invenção outorgada, especialmente no último ato do filme, ao arsenal de imagens recolhido e meticulosamente articulado dentro de novos sentidos que apenas esperavam para ser encontrados.

Com seu trailer, Godard nos deu em pequena escala toda a experiência de seu novo filme: guardar em 100 minutos um século de imagens. Tudo foi visto na propaganda de um minuto, mas antes disso, tudo fora visto no imaginário construído pelo séc. XX. Assim, o que resta ao filme é perguntar qual a duração do já visto, qual a permanência e abertura conquistadas em tudo aquilo que o homem conseguiu alcançar historicamente. Mais do que encontrar aquilo que Renoir não enxergou, Godard deseja evidenciar que algo não foi enxergado. Seu cinema, acima de qualquer outro, sobrevive como uma oportunidade de repetição do olhar, como uma nova chance. Pois reconhecer a impossibilidade de ver o tempo pode ser uma das últimas formas de tocá-lo.

¹ Acesse aqui o texto de André Bazin.

Fernando Mendonça

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290