Outras dimensões

Em alguma dimensão perdida há as dimensões repartidas do cinema que Jean-Luc Godard vem realizando nesses últimos quinze ou vinte anos. Um cinema absolutamente devastador em um olhar estético: não há comparativos possíveis, não há imagens que não sejam magoadas ao passar pelo olhar de Godard. A mágoa, aliás, parece sempre proclamar a sua independência nesse cinema convulsivo que o cineasta franco-suíço vem realizando nas últimas duas décadas. É um cinema cuja imagem-percepção emite o significado da falência pós-moderna: em Film Socialism tudo será embate, tudo será revolucionarizante, revolucionado, fadado, terminado.

É o fim que iniciará o início (“a origem é o local para onde sempre se retorna”, diz o narrador-personagem). É uma busca lânguida, indo mais além, apocalíptica. Godard vive numa dimensão própria (o senhor cinema; “o cinema terminou com Kiarostami”) cujo parâmetro cinematográfico está em constante montagem – literalmente –, porque para Godard parar, render-se é também morrer – talvez por isso seus últimos filmes sejam uma resposta à morte (física e cinematográfica), já que estão cheios da montagem-vida, interminavelmente perturbadora e complexa.

É também por combater a morte que Film Socialism proclama a revolução: Barcelona, a próxima meta (e chega a ser assustador essa visão-apocalíptica de Godard: o Egito e não Barcelona foi a próxima parada), é a estrada que ovaciona um filme que funciona muito mais como imagens (dimensões) isoladas e reflexivas do que como um filme (formalmente?) narrativo: porque Godard consegue desprezar o cinema do mundo e mesmo assim criar um cinema-mundo relevante e assustador. As fronteiras não existem mais, diz o filme. Talvez por isso vejamos no filme tantas imagens isoladas e discrepantes em sua essência: há imagens costuradas, de câmeras de celulares, de digitais, de outros cinemas, de outros fragmentos temporais. Realmente para Godard, as fronteiras foram destroçadas. Não é mais possível voltar no tempo, ir para trás. É necessário combater (e para o bem ou para o mal o cinema godardiano sempre foi um cinema frontal, combatente), parece dizer o filme desde o seu título.

Film Socialism é um filme de isolamento, obra de um cineasta que nunca temeu o confronto (nesses últimos tempos principalmente o confronto sensorial e imagético), que abandonou para sempre seu cinema de início, porque não há vergonha na palavra ou imagem diferida, porque se Nietzsche disse que cada palavra é um preconceito, Godard parece sempre querer responder: cada imagem é uma revolução – e é bem nesse caminho que o filme se concretiza como uma visão que parece sempre se amplificar em cada novo espectador.

Ricardo Lessa Filho

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290