Um socialismo estético: notas para discussão


    - Ao lançar
    Filme Socialismo em 2010, Jean-Luc Godard se afirma como voz dissonante no cinema contemporâneo. Mas “dissonante” pode ter um bom e um mau sentido: trata-se, afinal, de uma diferença estética rica e interessante, ou do grito inócuo de uma múmia dos anos 60 que ainda se movimenta? Tentemos então, em busca de possíveis respostas, localizar o ruído provocado por Godard a partir de dois pontos trazidos pelo filme: 1. Ritmo acelerado e montagem esquizofrênica numa época encantada e hipnotizada pelos planos longos, pelas durações estendidas (durées), pelos cortes raros e com sentido preciso dentro do filme; 2. Política: pôr em cena palavras como “revolução” e ”socialismo” num contexto onde (ainda?) se está ferido por uma desilusão que reordenou o modo de ver as coisas. Não é que artistas, críticos e estudiosos tenham abolido, hoje, o interesse pelas relações entre arte e política. Mas está tudo diferente: não é preciso pronunciar esses termos, deve-se castrar qualquer vontade totalizante, é necessário, sobretudo, investir na subjetividade e não aderir aos lugares fixos que os discursos revolucionários ultrapassados tentaram mapear. Assim é que Filme Socialismo pôde ter sido considerado datado por alguns.


    - Ao que parece esses signos confundiram os cinéfilos e críticos que não conseguem tirar da cabeça A chinesa, Made in U.S.A. e Pierrot Le Fou e acham que Godard procede da mesma forma. Porque Filme Socialismo está muito mais afinado com o espírito do cinema contemporâneo (seria melhor dizer “da arte contemporânea”) do que uma primeira e superficial olhada pode fazer concluir. Nossa atual fascinação pelos poderes da imagem pode abominar a frase célebre (e dada naturalmente a muitas interpretações) de Godard: “c’est pas une image juste, c’est juste une image”. O que se deve perceber é que o próprio Godard também, em certo sentido, hoje, a abomina. O Godard da década de 60 – isto é, da Era Pop crítica e dos manifestos situacionistas – precisava dizer “é justo uma imagem”, é uma mera imagem, um logro. Seu cinema era o do distanciamento ideológico de uma ordem existente e contra a qual era preciso fazer surgir outra, nova; do fazer estranhos, do mostrar como falsos, através de choques destrutivos, signos e valores que a sociedade da mercadoria fazia circular continuamente; do, enfim, fragmentar uma opressão que se mostrava cada vez mais homogênea e interconectada. Mas em Filme Socialismo, o Godard “de hoje” diz expressamente: “é preciso libertar todas as imagens de todos os textos”, ou seja, é preciso confiar na imagem, em seu desconhecido. Há aí, claramente, uma mudança de postura. O diagnóstico de Daney em Arrête sur l’image (reforçado a posteriori por Fredric Jameson) parece explicá-la plenamente: o choque que fragmenta o status quo e a montagem crítica distanciada foram completamente cooptados pela lógica da mercadoria e hoje dominam a publicidade, os bens de massa e as obras kitsch. O que Godard – que, sabemos, leu Daney (História(s) do Cinema) – vem fazendo nos últimos tempos, então, não é mais fragmentar para chocar; é, pelo contrário, chocar para unir, ligar. Mas, como é que Godard libera as imagens de textos num filme entupido de citações?


    - Através exatamente da montagem acelerada. As citações estão ali não para dar significado às imagens, para delimitar seus sentidos: elas, em sua velocidade impossível, transformam-se também em signos opacos e misteriosos exatamente como as imagens, ganham carne e evaporam; tudo está à espera de ser decifrado, de revelar algo por trás; tudo está, de alguma forma ainda indizível, conectado; todas as coisas – sejam textos, imagens, eventos – são sintomas umas das outras. Se o sentido de toda a fragmentação abismal de História(s) do Cinema é a percepção de uma grande história em comum, o sentido de Filme socialismo é, de fato, criar uma comunidade da qual paradoxalmente brotam todos os conflitos, “reais” e fictícios (do Egito à reivindicação das crianças), que Godard coloca em cena: tal é o socialismo do título, um socialismo que só se pode vislumbrar através de um filme, um socialismo estético. Eis que o enfant terrible que foi avatar de uma “postura modernista” rival da dos Straub (que não cansam de multiplicar filhotes no cinema atual), se aproxima do “comunismo eterno” (Aumont) que o casal sempre praticou. “Dinheiro é um bem público, como a água” – o filme começa e Godard transforma tudo o que conhecemos em elementos materiais que revelam outra natureza. Nossos significados apriorísticos caem por terra, revelam-se extremamente arbitrários e absurdos. Não, não há uma quebra totalmente radical entre as “fases” da carreira de Godard. Essa operação ele já praticava, em certo sentido (não é à toda que a segunda parte deste filme tripartido lembra tanto a mise-en-scène ensaística de Duas ou Três coisas que eu sei dela). Há sim um “estilo Godard” que ainda se enxerga, se reconhece. O que muda é a postura: distanciamento dialético das coisas antes, ressonância comum misteriosa entre as coisas a serem descobertas, agora. Godard não está pregando “a revolução” e o “socialismo” (não se enganar com as notas dramáticas dos violinos, elas são sempre interrompidas) – mas está fazendo voar esses termos, esses significantes, junto com imagens para mostrar relações e implicações que o nosso modo “habitual” de olhar está nos fazendo perder de vista. A definição que Deleuze deu de Godard para explicar Bergson, portanto, nunca foi tão atual: “Não há diferença alguma entre as imagens, as coisas e o movimento”. Aqui também, pois, a durée está presente, mas através de uma construção destoante do quadro geral do cinema contemporâneo da desaceleração. A primeira parte do filme, no cruzeiro, é sem dúvida a mais deslumbrante: Godard transfigura agressivamente jantares de luxo, luzes multicoloridas, danças em discoteca, a “ficção” e o “documentário” e transforma a música de Madonna num mantra a ser lembrado: “because we live in a material world”. O navio de luxo é um microcosmo do capitalismo cercado por um oceano sublime infinito e por um sol enorme (aqui é preciso lembrar de Salve-se quem puder: a vida e Je vous salue Marie). Os ecos e ressonâncias – as risadas do início e do final, Alissa, a democracia-tragédia grega (foto), o relógio que não marca a hora, mas o tempo, etc, etc – entre as três partes do longa não saem fácil da cabeça. Eles, mais que a rapidez inapreensível do que vemos, é o que importa aqui. É preciso sentir que a segunda está a serviço dos primeiros.


    - Se Godard está datado em algo, não é em seu discurso político estético: também ele tenta, em nossos dias pós-utopias revolucionárias, estabelecer comunidades precárias, rápidas e misteriosas – conexões estranhas às quais nossa necessidade política localizada e contextual pode recorrer – como o digital brilhante e insondável que permeia toda a heterogeneidade do filme que passou na Internet e em Cannes. Se ele está “datado” é em seu desejo de construir uma amplo painel que destoa muito do retorno ao dispositivo cinematográfico que as narrativas dos cineastas contemporâneos mais em pauta no debate atual praticam. Não há nada mais démodé que filmar uma câmera filmando, ser ultra alto-reflexivo. Ainda assim, Filme Socialismo é ensaio, montagem fotográfica, vídeo, instalação, cinema, televisão, museu, uma colagem de excelência formal notável. Talvez seja preciso deixá-lo guardado um pouco para ver até quando vamos gostar de brincar de ir ao cineminha.

André Antônio

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290