O Amor e Outras Drogas (2010, Edward Zwick)

Duas horas de alívio por você ser quem é.

Com esta frase, a protagonista de O Amor e Outras Drogas define o seu entendimento do ato sexual: um acontecimento mecânico, efêmero, mas compensador pelo gozo fácil, pela anulação momentânea do Eu e o esquecimento tão desejado frente aos problemas cotidianos. Qualquer um pode identificar na fórmula acima um equivalente ao espetáculo cinematográfico, pelo menos àquele filão de mercado onde se encaixam filmes como os de Edward Zwick. Qualquer que seja o gênero (e para Zwick isso realmente não importa, pois ele é um diretor que consegue flanar com a habilidade padrão de Hollywood por qualquer um), há no cinema comercial um reflexo deste sexo rápido bastante evidente, e encontrar tal ponto comum a partir do filme de Zwick é suficiente para que voltemos uma mínima atenção ao seu comprometimento com a fórmula.

Antes de tudo, se falamos em comprometimento, é porque a constatação de Zwick – de um sexo e de um cinema efêmeros – ao invés de tornar-se enfrentamento, compactua com aquilo que parece ter incomodado apenas a superfície de sua consciência. Daí que O Amor e Outras Drogas termina por ocupar o lugar de filme sintoma do momento, no que há de bom e ruim nesta posição.

O entusiasmo com o qual o filme vem sendo recebido, seja por equilibrar-se num tom de humor que foge ao escatológico, seja por dosar com algum realismo um período histórico específico (anos 90) ou por simplesmente despir seus atores diante das câmeras, é um notável sintoma da carência que a indústria americana vem enfrentando em aspectos fundamentais para o cinema (de gênero, representação e moral). Ora, como avaliar um cinema que baseia seu potencial polêmico num seio que se deixa expor dentro de um consultório médico? Pois convenhamos, a nudez do seio de Anne Hathaway em seu exame médico é muito mais confrontadora do que qualquer cena de transa posterior. Se o cinema americano continua estacionado no ponto onde um seio ainda é motivo de nota e de consternação por parte de seu público (pois um sintoma de cinema também é um sintoma do público), fica realmente tentador receber o trabalho de Zwick como um fôlego a ser apreciado.

Mas é importante lembrar: cinema é mais do que mecanismo, é mais do que um instante, ainda que em vários níveis ele possa ser provado dentro destas limitações e revelar nelas uma faceta que lhe é própria desde sua origem (do entretenimento). Dos problemas a respeito de O Amor e Outras Drogas – muito mais ligados ao seu meio de divulgação e exibição –, identificamos em seu contexto e, especialmente, na recepção alcançada, uma grave falta de entendimento que o público demonstra ter, não só do sexo (ainda que o seja grande), mas do espetáculo em si. Pois cinema não é alívio.

Fernando Mendonça

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290