Ondas passadas

Socialismo de Godard surge num momento de desconstrução de toda uma forma cinematográfica. Enquanto o cinema asiático e seus realizadores são cada vez mais visados nos grandes festivais por suas narrativas lentas com tomadas longas e contemplativas, Godard surge em sua forma mais radical. Mas seu radicalismo não esta só no tema. A fragmentação que parece ser um ciclo vicioso dentro da obra do cineasta chega ao seu ponto mais desconcertante e até irritante. A fragmentação não esta apenas nas cenas, mas em toda uma ordem que já fora um dia pré-estabelecida.

Parece que recortes daqueles 120 minutos estão num jogo de memória, ou ainda afundado no próprio mar godarniano. Mar este limitado e ao mesmo tempo complexo. Complexo até demais, pois parece estar apenas na cabeça de seu realizador.

Diálogos irônicos ou sérios sobre a história contemporânea perdem seu próprio poder de questionamento. Nada ali envolve ou reflete, apenas surge na tela e desaparece.

Serão essas idéias apenas ondas passadas como aquelas que o navio atravessa em meio ao oceano? Parece querer atirar para todos os lados, mas ao final atira apenas no espectador que surge inerte ao fim da sessão, na sensação de ter visto apenas mais um filme do Godard.

Nuno Balducci

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290