Bravura Indômita (2010, Joel & Ethan Coen)

Faz-se a luz. Ouve-se a voz narradora, como prestes a ninar um filho na escuridão de uma noite fria e isolada. Bravura Indômita, desde sua abertura, não esconde o interesse ancestral de transmitir um evento passado, de continuar uma tradição e perpetuar pelo verbo um tempo que se foi, mas não apagou o ímpeto da lembrança. Sua primeira imagem, não por acaso noturna, delineia-se aos poucos, no foco sobre uma casa que ganha definição mediante o aparecimento da luz irradiada por seu interior. Da imagem-verbo estabelecida, a evocação narrativa prossegue alternando os efeitos da voz e contornando seus ecos nos momentos de iluminação e clareamento da cena, como se as palavras fossem convertidas em luz.

O rigor dos Coen em trabalhar de forma transparente o elemento ficcional, princípio de toda sua obra, não os impede de introduzir evidências que demarquem o território da ficção e de sua construção planejada, pela luz e pela sombra, como um lugar onde algumas coisas devem ser lembradas em detrimento de outras, onde a escolha e a decisão da memória fundamentam a necessidade do mito e de sua permanência no tempo.

Bravura Indômita é um filme sobre a luz, e pela maneira como ilumina e se permite existir unicamente pela iluminação, é um atestado de que o ato narrativo pode ser a última das fontes de luz alcançadas pelo homem. Da janela que abre o filme (como dizendo Era uma vez…) aos notáveis contrastes das amplas paisagens desérticas, temos aqui um passado em processo de iluminação, filtrado pela perspectiva de uma primeira pessoa que, ao narrar, reflete o divino poder de clarear o mundo e torná-lo um potencial espaço de vida, de fôlego humano, passível de ser corrompido a qualquer nova escolha. No entrar em cena de Rooster Cogburn (Jeff Bridges) e LaBoeuf (Matt Damon) fica bastante evidente essa importância da luz no registro proposto pelos Coen. O primeiro, dentro de um tribunal, surge como revestido de uma fantasmagoria cara ao cinematógrafo, com um corpo que se coloca entre a luz e a câmera, ocultando suas formas mais do que revelando-as; é somente por seu contorno que confirmamos a presença, a força de seu reconhecimento e identificação, pois custamos a enxergar de fato um rosto que na verdade nunca será visto. O segundo, diluído pela fumaça de um cachimbo, também só encontra forma quando alcançado pela chama do fogo que utiliza para manter o fumo; nele, a mesma escuridão primeira da noite esconde suas motivações, não importando o caráter de suas escolhas até que elas sejam definitivamente tomadas.

Por mais que os Coen trabalhem um cinema de personagens (ou talvez porque o trabalhem ao extremo), eles nunca nos dão a totalidade de um indivíduo. Seus corpos, seus nomes, seus anseios (sim, dos tipos filmados e dos próprios diretores) sempre se colocam numa posição oblíqua no que concerne ao contemporâneo do cinema americano. Herdeiros orgulhosos de um passado que insistem em proclamar, seu cinema da tradição, longe de render-se ao que há de conservador no tradicional, abraça a atualização dos sentidos mundanos como a necessidade intrínseca para o fazer da imagem. Neste caso, a atualização de Hathaway (refilmagem é o último termo que pode vir à mente) também consiste em lançar luz a um cinema que soube encontrar no isolamento do homem uma resposta ao afeto esquecido. Tanto em Hathaway quanto nos Coen, o homem iluminado e colocado em imagem é o ser que espera pela identificação, pelo reflexo e completude do Outro, ente impossível, sem lugar no mundo.

Quando a jovem Mattie Ross (Hailee Steinfeld), no último ato de Bravura Indômita, cai num buraco onde será picada por uma cobra, sua última visão de vida, anterior à esperança do socorro, é o contorno do próprio buraco que acabou de atravessar. Da escuridão cavernosa, a luz do dia que compõe a abertura fora de seu alcance – branca como a tela branca onde se projeta o filme – ilumina a única saída possível, a passagem que pode significar o fim ou o reinício de sua vida. Desta luz, desta fenda e da relação que ela nutre para com o cinema, deposita-se uma convicção plena na expectativa da garota inerte, encontra-se em seu salvamento o heroísmo da narrativa. Sobreviver para contar, contar para sobreviver, o resgate de Mattie também atualiza os Coen como um ponto de luz na noite desértica que o cinema atravessa.

Fernando Mendonça

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290