Cidade Tranquila (2007, Aaron Katz)

Momentos singelos

Cidade Tranquila inicia como suposição à modernidade cinematográfica: estamos na era digitalizada, e o cinema já não é mais algo somente possível aos magnatas europeus ou norte-americanos. As paletas de cores revelam prontamente os granulados – que acusam com um orgulho imenso essa independência cinematográfica –, que faz emergir essa condição operária, que legitimam e ampliam suas possibilidades artísticas não mais para o indie, mas para o já oficializado Ultra Indie (ou Mumblecore), que para além das definições meramente casuais, se converte notadamente como um movimento cinematográfico (em pleno 2011 nem mais tão jovem assim) com verbetes estilísticos já devidamente definidos.

Jamie (Erin Fisher) mora em Atlanta e vai até Nova Iorque para se encontrar com uma amiga. Mas chegando à cidade, não consegue em nenhum momento ter contato com essa conhecida, e em meio a esse desencontro feminino, Jamie conhece Charlie (Cris Lankenau) ainda no metrô, que prontamente a oferece sua casa, e sem ter para onde ir ela não recusa o convite. É dessa singela sinopse que o diretor Aaron Katz constrói um filme sobre a marcha de uma juventude deslocada num mundo prometido, mas que nunca foi realmente deles. É também um filme sobre as pequenas gentilezas do cotidiano e como através da irresistível progressão narrativa o diretor permite o espectador sentir as futilidades e fascínios dos personagens – e as improvisações nos diálogos contemplam a imensidão alternativa e muitas vezes ingênua que somente os cineastas iniciantes podem exercer.

Cidade Tranquila expõe ao cru seus jovens personagens e Katz parece sempre querer compartilhar um meio out of home de viver, de evidenciar os conflitos pós-diploma universitário (e pós-lar, também) que os jovens norte-americanos (e de tantas outras partes do mundo) estão inseridos. É um modus operandi cujo único lar possível é o lar cinematográfico, porque na improvisação das cenas, na montagem que concede exímia liberdade artística, sempre vai ressoar a beleza da cena conjunta, dos corpos que anseiam silenciosamente o outro (e Aaron Katz já com Dance Party, U.S.A, seu longa-metragem de estréia, explicitava seu talento nato em conceber cenas ancoradas nesse desejo calado pelo corpo alheio). É também um contraponto interessante como Katz subverte a sonoridade nova-iorquina (sempre tão barulhenta e cacófana no cinema hollywoodiano; de Scorsese a Ferrara), transformando e transportando o Brooklin para uma dimensão largamente comedida em nível sonoro e físico.

Os personagens dos filmes de Aaron Katz parecem sempre fugir do estereótipo do jovem americano alienado, aliás, mais do que fugir eles parecem exigir um confronto excitante e legítimo, restando apenas os resquícios intelectuais nos quais esses personagens estão comprometidos (não muito raramente os personagens de Katz e de alguns outros filmes residentes no Mumblecore/Ultra Indie se interessam muito mais por exposições de arte e museus – mas nunca, graças a Deus, soando cult ou intelectualóide – do que por líderes de torcida ou esportistas universitários). O filme ainda guarda a aparição do cineasta e ator Joe Swanberg (Nights and Weekends; Hannah Takes the Stairs), que ao lado do próprio Katz e de Andrew Bujalski (Funny Ha Ha; Mutual Appreciation) talvez formem a tríade mais importante deste recente movimento cinematográfico – que tem sim sua parcela de irregularidade, porque se é irregular do jeito que é, é também porque a maioria dos cineastas surgiu e amadureceu enquanto artistas dentro dele e as tentativas em enquadrá-los dentro de um termo é mais insistência midiática do que qualquer outra coisa.

E mais do que os outros dois cineastas da citada tríade, os personagens de Aaron Katz são marcados por uma qualidade cada vez mais incomum no cinema americano: seus personagens realmente parecem escutar e compreender uns aos outros, parecem querer sempre compartilhar a descoberta de outras visões em um mundo cheio de signos confusos. Por isso e tanto mais que o elogiadíssimo Cold Weather (2010), o mais recente trabalho do cineasta, é um dos grandes filmes por mim não vistos em 2010, e a crítica de Adam Nayman para a Cinema Scope (atualmente uma das melhores publicações em inglês sobre cinema), dizendo que o filme é um primo próximo de Cidade Tranquila e superior a tudo o que Katz fez até então, mas quando Nayman diz que magistralmente Katz transforma a narrativa tranqüila em um filme de gênero detetivesco, o status de Cold Weather eleva-se de um dos grandes filmes que não pude ver no ano passado, para um dos grandes filmes que serei obrigado a ver em 2011.

Ricardo Lessa Filho

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290