O Mágico (2010, Sylvain Chomet)

Não é mais surpresa alguma – a não ser aquela que é pontuada justamente neste momento – quando o protagonista de O Mágico, de Sylvain Chomet, entra num cinema e lá está em exibição Meu Tio, de Jacques Tati. É um momento autoreferencial (até por demais), pois o roteiro é do próprio Tati e o personagem de O Mágico é ele mesmo, um quase Tati-Hulot, num registro por vezes tocante no que ele tem de quase mutismo e de crença vital nas imagens melancólico-bucólicas que produz. Ao entrar no cinema e ver a si mesmo, este personagem-título, atuando no filme, figura curiosa de um mundo bem mais material do que o filme mais famoso de Chomet, As Bicicletas de Belleville, reconhece enfim algo que desde o início já se sabe muito bem: não há mais espaço no show business para figuras como ele, mágico, e para figuras que trabalham artesanalmente o olhar do espectador. É a fagulha para o final e é um final para a última das fagulhas.

Entretanto, é este o protagonista do filme de Chomet e é este o ser que, sem esforço algum, tem força para levar adiante um projeto de filme, de personagem e de elucidação estética extrema. E quando se diz “adiante” diz-se mesmo “ao final”, e mais ainda “rigidamente até o fim”. O Mágico se passa numa época bastante difícil, o que parece ser os anos 1960, o começo deles, quando os jovens do ocidente foram assaltados pelo rock and roll e pela expectativa de encontrar o Fantástico no corpo dos ídolos – não mais no que pode surgir a partir de um corpo, a mágica. É a época de Meu Tio, quando o futuro não batia à porta (já estava presente na vida cotidiana) e só havia salvação nos cachorrinhos pobres que vagavam à rua, e quando, em O Mágico, os shows de rock se consumiam nos movimentos até afeminados dos integrantes das bandas que, sem julgamento nenhum, vemos não fazer tanto sentido quanto ao fugaz espetáculo contido neles mesmos.

“Ir à frente”, então, é finalizar um personagem, levá-lo ao limite de sua própria história, segundo Chomet. Não há mais um certo reconhecimento do espectador a partir da caricatura forçada e bonitinha de As Bicicletas de Belleville, onde o que parecia importar mais certamente era como nos apegar às nossas caricaturas, e como se deslumbrar com a possibilidade de deformidades que oferecemos à nossa arte. Daí que eu sempre tenha tido a impressão de que As Bicicletas… parece um filme sobre a amplificação da cultura e dos costumes franceses, algo como uma superexposição destes, que um filme como O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain, apesar de um certo “apelo universal”, está bem de acordo, bem ali onde a deformação (de pessoas, de cores, de sentimentos expostos, de forma de expor) acaba por se tornar um grande dispositivo de paixão imediata – e, depois de certo tempo, pode-se dizer, durável, finito.

O que acontece em O Mágico é que não há como se filiar pela aparência dos personagens (quem não conhece o corpo de Tati, achará o mágico feito por ele, pelo desenho que o representa, alguém bem comum, mais um rosto qualquer), eles são vistos geralmente de longe, em silhuetas e o que nos sobra é somente acompanhar aquilo sem deslumbre de nenhuma natureza, a não ser, talvez, a estética, que aqui é discreta, calada, quase propositadamente morta – não seria O Mágico o filme sobre a morte de uma figura? A vida que essas figuras levam (com Tati está uma menininha chamada Alice, que ele leva consigo depois de uma turnê fraquíssima numa cidadezinha da Escócia) acaba por esmagá-los de uma forma mais consistente do que algumas outras animações recentes – quanto a isso, o hotelzinho onde estão hospedados é um dado importante: uma casa para artistas velhos e falidos. Isso porque, talvez, não haja outra elucidação que não seja aquela que se faz pelos cenários, pela indiferença feliz dos inúmeros figurantes que não percebem em que mundo se deteriorando eles talvez se encontrem. Não há nada na voz que nos faça perceber alguma coisa. A felicidade é sempre uma questão difícil de precisar, sabe-se desde Godard e Fassbinder.

Nesse sentido, Chomet de fato vai bem de acordo com o cinema de Tati: neste “não-falar” cabe uma melancolia que poucos observam na obra de Tati como um todo – parece que, a cada filme de Tati, vemos o caminhar do fim de um mundo (as tardes na praia de As Férias do sr. Hulot sempre me dizem isso). Nada mais comum, então, que depois da cena no cinema, quando é obrigado a entrar para se esconder pois vê Alice com o namorado que até então ele nem sabia da existência, este nosso Tati-desenho-animado caia em si, retire-se com uma frase deixada como bilhete que ainda não sei dizer se é realmente belíssima como epitáfio, ou se é festiva como espetáculo da melancolia que já está instalada e que, como se vê, é insone.

Claro, o filme vai se passar quase que totalmente num local instalado à força, que não é Paris, mas a Escócia. Manter-se vivo ali (o que não é, de forma alguma, manter-se importante, como aquele sujeito do tour de france, novamente em Belleville) é uma questão bem mais primordial. O valor do filme de Chomet parece vir do fato de que as coisas, conforme são expostas, nos contam mais pelo que são: os planos significam tanto ou mais para os personagens do que para o espectador – encaixa-se aí, provavelmente, a cena do velho palhaço prestes a cometer suicídio. A diegese não é um mundo inatingível, mas é um mundo perfeito para qualquer coisa, não só para a exposição violenta de sentimentos nem de cenas tão movimentadas.

A leveza de O Mágico (forjada? encenada sobretudo pela técnica que, mesmo mais discreta, salta aos olhos?), em sua descoberta dessa parcela tão importante na filmografia de Jacques Tati – ou seja, o fim sempre latente da figura do personagem, o leve desenrolar do fim de um mundo – é o que o leva para próximo das animações que devemos olhar com cuidado (com desconfianças, sim, como em todo e qualquer filme, mesmo que estas apareçam para que sejam amadas de fato) até o tempo em que se descubra, ao certo, o porquê de nossa adesão a elas. Se por tudo o que é imposto como bonito no filme ou se por tudo o que é intimamente derrotado por novas imagens que vem para substituir velhas funções, como a do próprio homem da mágica, este ser que, ao final, vai se declarar inexistente, impraticável, mas perfeitamente filmável.

Ranieri Brandão

Fevereiro de 2011


ISSN 2238-5290