Burlesque (2010, Steve Antin)

Uma das iniciativas tomadas por Ali (Christina Aguilera) ao começar a trabalhar no clube Burlesque é sugerir que os números musicais deixem de ser dublados para serem executados ao vivo. Inserir maior realismo ao espetáculo é sua proposta; e como não poderia ser diferente, a ousadia termina por trazer um retorno de público bastante superior ao esperado, salvando o negócio da temida falência financeira. Paradoxalmente, a história do cinema musical seguiu a contramão exata deste episódio.

Gênero dourado por excelência, o musical hollywoodiano sempre evoluiu no que podemos chamar de uma diluição da realidade. Intensificar o falso é a premissa, dar lugar ao artifício e fazer dele a evidência do gozo por meio de corpos e vozes que parecem suspensos no mundo material. Os primeiros passos dados pela música no cinema aos poucos foram sendo desviados para direções das mais diversas, abrindo o gênero a possibilidades que o levaram a um apogeu incontestável, mas que rapidamente trouxe o desgaste. Os lábios do Cantor de Jazz, os números de Berkeley, os pés de Astaire… Muito cedo tais encenações da realidade – pois importava convencer o público de que a música era real do outro lado da tela – deram lugar para outras formas de se olhar e ouvir o cinema, mais livre, diriam alguns, enganosa, outros.

Burlesque não se filia a este primeiro cinema. Sua postura, da encenação fragmentada, poderia se aproximar mais daquele outro momento que o gênero viveu, com os músculos de Gene Kelly, o onirismo de um Minelli, o júbilo em cor de Donen… O mesmo período que morreria no corpo-símbolo de Tony (West Side Story, 1961) e que jamais seria superado, senão por um ou outro fôlego no luto que se estendeu pelas décadas seguintes. Pois se for mesmo necessário encontrar Burlesque numa forma de cinema, isto só poderá ser feito pela dor do luto.

Filme de corpos e vozes mortas (pois a vida encontrada em outros níveis de espetáculo não define a vida no cinema), de luzes e sombras vazios, Burlesque é a mais nova lágrima derramada por um gênero morto, revirado impunemente nos últimos anos por técnicos que nunca devem ter sentido o coração bater mais forte diante da alma que ainda emana do grande cinema musical que um dia justificou todo o glamour de Hollywood. Respeitemos a dor, mantenhamos o silêncio devido diante da morte.

Fernando Mendonça

Março de 2011


ISSN 2238-5290