Bibelô

Deparamo-nos com dois fenômenos que bem podem interessar a um historiador da cultura de massa quando assistimos a O discurso do rei. Mas antes de passar a eles, lembremos o seguinte pensamento do crítico Andreas Huyssen ao observar como mudamos desde o modernismo: “não há mais um único caminho semiótico para atingir o objeto”. Ou seja, as considerações aqui feitas não visam a apontar a maneira apropriada de abordar o passado ou a figura de um rei. Um artista pode fazer precisamente o que quiser ou o que bem entender. Isso, porém, não o torna imune à crítica. Esta, interessada pelos processos mais amplos da sensibilidade e dos afetos culturais, está sempre a procura da responsabilidade estética. Tiremos o “peso” da palavra “responsabilidade”, o peso que a liga a uma ideia de arte erudita e carrancuda. O pop, o popular, pode, deve, ser responsável criativamente, o que não precisa excluir diversão, entretenimento, larga aceitação, etc. É preciso deixar isso bem claro antes de apontar a irresponsabilidade do filme de Tom Hooper. Não se trata, pois, apenas de uma crítica adorniana e ranzinza com o nariz torcido porque o Oscar foi ganho.

Primeiro fenômeno: a museificação. O discurso do rei não enfrenta os signos do passado. Não os busca para entregá-los ao espectador contemporâneo a partir de um projeto estético verdadeiro de ressignificação, de (re)descoberta, de ressurreição. Estes signos são, aqui, meros enfeites. O espectador está seguro e olha-os distanciado, com o ar distraído de um britânico “oh, interesting!”. Ver o bibelô. É a relação tranquila do museu tradicional; nostalgia burguesa. É a velha história de ver o pitoresco no outro (neste caso, não no outro de classe ou de gênero, mas de época), ver os macaquinhos atrás das grades, prontos para fazer seus olhos descansarem. Ou ver aquele documentário sobre a família real da TV a cabo que não se assume enquanto fofoca – mas com uma carpintaria caprichada pra a sala de cinema.

Segundo fenômeno: o bom-gostismo. Como sabemos, a sala de cinema agora faz parte do tour que a programação de um shopping center oferece. Compram-se roupas e outros utensílios, ok, mas aí, quem sabe, pode-se por acaso também comprar um ingresso (lembrar aquela terrível expressão “o filme valeu a pena o preço do ingresso”). Assim o cinema pode ser melhor consumido: paga-se bem e espera-se ser tratado como um completo idiota por quase duas horas ou (geralmente para um público mais velho) espera-se uma coisa agradável, um filme “excelente”, gracioso, com este ou aquele ator interessante (a tela transformando-se num fantasmagórico tapete vermelho ou na capa de Caras). O discurso do rei tem toda a gramática desse bom gosto: dois arquétipos – um membro da realeza e um homem comum – interagindo, para que as faíscas mais leves e espirituosas possam brotar. Mas os risinhos dessa fofura são contrabalanceados pelo peso da história: é a parte “séria”, claro. Os fatos que levam à Segunda Guerra marcham com a solenidade de uma apostila do ensino médio. E nosso herói tem que carregar esse peso nas costas. Tocante. Lembrar aquela ótima expressão: “sofisticado de novela”.

O discurso do rei, então, pode eventualmente interessar a um estudioso que investigue os padrões da cultura de massa atual, mas certamente não a um espectador que busque o desafio da arte. Enfim, para além da crescente consolidação de Helena Bonham Carter no star system contemporâneo, outra coisa que não pode passar despercebida no premiadíssimo longa de Hooper é a forma ridícula através da qual o nazismo é figurado, ou aliás, incorporado à diegese do filme. Irresponsabilidade, novamente e também, no uso do found footage do discurso de Hitler (o que não quer dizer que – ideia corrente em alguns círculos e debates cultos – o nazismo seja algo “irrepresentável”. Trata-se daquela questão da responsabilidade estética de novo). Se é bem fácil imaginar Godard tendo um enfarte ao ver os malvados vilões nazistas perseguindo Indiana Jones, pode-se bem imaginá-lo fazendo uma montagem relacionando o nazismo de butique desse filme com o verdadeiro absurdo que é essa Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mas ninguém mais precisa apontar a caretice do Oscar. Ou precisa?

André Antônio

Março de 2011


ISSN 2238-5290