Deus salve o Rei

A imensa inserção de elementos radiofônicos em O Discurso do Rei vem para (con)firmar um alto teor do poder verbal em sua narrativa, e mesmo com as estranhas escolhas de seu realizador, Tom Hooper, o filme parece sempre se manter num trilho demasiadamente confortável, recusando assim, qualquer embate possível em qualquer aspecto composicional. Então como filme-texto que é, a obra de Hooper encena cuidadosamente o “lado negro” de mais um(a) personagem da monarquia britânica, aqui mais especificamente o Rei George VI e a sua gagueira constrangedora.

Faz-se necessário notificar o signo pelo qual o filme é erguido, o da imagem-verbo, que sustenta com uma força hercúlea todo o propósito do filme como existência cinematográfica: pois para além dos travelings ansiando uma argumentação estética de alto nível, é na atuação da imagem-verbo e da dupla Colin Firth-Geoffrey Rush, respectivamente George VI e Lionel Logue (esse, o fonoaudiólogo do então futuro rei), que o filme de Hooper consegue atingir as aspirações pessoais do diretor (ser uma obra “premiável”), que parece exuberantemente confiante em suas escolhas, que não passam de opções patenteadas para qualquer cineasta que sonhe com uma vaga dentro da premiação mais mercadológica do cinema. Dito isso, o filme se enclausura em um mundo estranho (recheado por uso de enormes lentes angulares, apenas tonificando o dia, o mês e o ano de sua realização) que parece não merecer as excepcionais atuações que possui.

Emerge aos olhos a falta de combatividade que O Discurso do Rei possui (é tudo estrondosamente anti-séptico), Hooper manuseia-o em escalas de composição redundantes que sucedem uma a outra de uma forma anêmica e a proporção dos elementos constituídos no filme parece gerar eco em outro mediano filme e também concorrente ao Oscar 2011, O Vencedor (The Fighter, 2010), de David O. Russell: ambos são formados por tratamentos imagéticos equivocados, falsamente rigorosos e por esse falso rigor esquecem completamente do vigor essencial que eles deveriam possuir – mas nada mais natural quando analisamos o rigor que parece não existir dentro das maiores premiações do cinema norte-americano, os filmes selecionados naturalmente são reflexos de um modus operandi de toda uma cinematografia hollywoodiana que a cada ano se limita mais e mais.

Justificativas não faltam para explicar o sucesso de O Discurso do Rei no Oscar 2011 (levou quatro estatuetas para casa, incluindo melhor filme), mas o mais interessante é o aspecto antagônico que o filme de Tom Hooper auto-instaura quando comparado a outro recente filme sobre a mesma monarquia britânica, A Rainha (The Queen, 2006), de Stephen Frears: o primeiro sente o desespero de ser insignemente cinemático, enquanto o segundo evidencia sua narrativa televisiva como ponte maior e mais coerente de execução – porque reis e rainhas tornaram-se tão célebres (num sentido pejorativo), que a melhor maneira de exibi-los talvez seja mesmo numa estética televisiva tão abocanhada pela mediocridade.

Ricardo Lessa Filho

Março de 2011


ISSN 2238-5290