Enredo como maquiagem

O grande vencedor do Oscar 2011 demonstra, mais uma vez, o conservadorismo da academia perante a produção cinematográfica, legitimando um cinema de receita de bolo e de boas maneiras. O Discurso do Rei é mais um produto da série, o que não desqualifica seus momentos bons, mas mantém o jogo de cartas marcadas que é a premiação do Oscar.

O filme de Tom Hooper é o que podemos chamar de mais uma conservadora reconstituição histórica de pano de fundo com um enredo à parte como maquiagem. Nesse sentido o diretor não errou e fez O Discurso do Rei ter bons momentos sem que precise afirmar um ponto de vista histórico, ou seja, feito para ser agradável a qualquer um que queira ver um filme mais leve na tela do cinema ou na tv em casa. O filme se mantém com todos os ingredientes padrões, sem arriscar em nada original ou pretensioso.

Colocar na tela o problema de um rei inglês com final de superação é cartilha esperada, mas neste exemplar podemos dizer que há uma espécie de fuga por salientar a dificuldade de um tratamento como o do protagonista. Se referindo ao elenco, podemos afirmar que seja um ponto agradável do filme pois os atores Colin Firth e Geoffrey Rush nos dão alguns bons momentos junto de alguns raros pontos altos do longa.

A relação “médico” e paciente funciona bem como pode e possui boas piadas, mas tudo em sua limitação de alguém que parece com medo de arriscar e aprofundar-se melhor. Nesse sentido tudo que é abordado (afora o tratamento) é superficial e quadrado. O melhor exemplo disso esta na reconstituição histórica dos fatos da época.

Afirma-se aqui uma visão idealizada e imatura das relações alemães e inglesas no pré-segunda guerra mundial. Parece que já esperávamos algum personagem dizer que fulano estava certo e outro imaturamente errado perante as ações de Hitler. Nesse propósito, há quem consiga convencer melhor (James Ivory?). No geral, O Discurso do Rei é um bom filme e nada mais que isso, daqueles filmes pra se ver sem ter muito que falar, pois o próprio filme impede de nos aprofundarmos por causa de sua própria superficialidade.

Nuno Balducci

Março de 2011


ISSN 2238-5290