Da Falta do Gozo

A rigor, elementos exteriores ao que há de material num filme de cinema não alteram a garantia de seu estatuto enquanto produto decidido e finalizado. Apesar disso, não é inabitual vermos situações em que um dado externo afete a maneira como determinado filme pode ser recebido, ampliando-se suas possibilidades de leitura e relação com seu tempo e lugar. Do estardalhaço que hoje cerca O Discurso do Rei, destacam-se duas variáveis que, de alguma forma, tornaram-se paralelos intrínsecos e indissociáveis ao filme, no que de bom e ruim possam acarretar.

A primeira delas, obviamente, consiste no reconhecimento obtido em festivais e premiações, dentre os quais, o Oscar ocupa lugar de destaque pelo reconhecimento popular da indústria e do público em massa. Ainda que seja impossível um prêmio redefinir o estado de seu vencedor é preciso admitir que o olhar lançado ao filme, as expectativas que o acompanham, foram profundamente alteradas, impedindo que a experiência cinematográfica se dê no esperado nível de pureza do olhar que toda obra pede.

O outro fator de influência sobre O Discurso do Rei, longe de ser instituído enquanto polêmica vazia, está na escandalosa constatação de que um de seus cenários serviu de palco para a produção de outro filme: o pornô gay Snookered (Jonno, 2008). Fruto do acaso (?), a relação forçosamente nutrida entre os dois filmes – e, de fato, não temos como chamá-la de externa ou arbitrária, pois o cenário pode ser integralmente visto em ambos os filmes de maneira idêntica – termina por revelar algo a mais no trabalho de Tom Hooper, transformando a constrangedora semelhança numa chave que pode conduzir a outros significados.

De imediato, é preciso lembrar que O Discurso do Rei não é o filme histórico que vem sendo amplamente vendido. Pouco preocupado com história e política (pelo menos não além do que facilmente se apreende de sua superfície), Tom Hooper construiu, na verdade, o delicado retrato de uma relação nutrida por dois homens que, para se aproximarem, tiveram de superar traumas, preconceitos, desprazeres e obrigações que se acumulavam sobre suas vidas e se impunham como a própria vida. Daí, a relação de Hooper encontra especificamente no cenário em questão (lugar onde ocorre a maior parte do tratamento contra a gagueira do Rei) o espaço da subversão e do desvirtuamento da tradição; o que temos em O Discurso do Rei, sob inúmeros aspectos pode ser identificado também como uma relação pornográfica.

Das paredes que compõem este cenário singular, descascadas em suas múltiplas camadas de tinta, exala o mais profundo senso histórico que O Discurso do Rei pôde extrair de seu caráter biográfico. Ao optar por não alterar em absolutamente nada a condição física do cenário, Hooper angariou no mesmo espaço, ainda que inconscientemente, um sem número de vidas e ações passadas que parecem perseverar em seu filme. O fato é que são nestas internas que O Discurso do Rei desenvolve seus melhores momentos, seja pelo drama, pelo brilho dos intérpretes ou pelo que – difícil não insistir – emana das tintas envelhecidas. Pois são estas paredes, este alicerce, que ao mesmo tempo aprisionam o filme a uma pesada amarra teatral (nesse sentido, Jonno movimenta sua câmera muito mais para conseguir os super closes padrões do pornô) e o transcendem para além das vozes que, onipresentes, quase tomam o lugar da imagem (pelo que o filme tem sido considerado um produto muito mais radiofônico).

Infelizmente, o movimento encontrado no estado bruto destas paredes, não é atingido em outros lugares do filme de Hooper, que por sua vez, não parece definir o lugar devido à imagem de maneira clara e coerente com o espaço alcançado. Se com este filme vemos representada parte da espetacularização da política e da vida monárquica inglesa (sua prostituição), não encontramos o mesmo no que concerne ao interesse cinematográfico adotado por ele (conservador ao extremo). Não há resistência em O Discurso do Rei, há apenas um pacífico tratamento de temas que beiram a indignidade, numa fôrma das mais dignas possíveis. A pornografia do filme, assim posto, consiste justamente nesta cadência da expectativa sempre cumprida; não ultrapassamos a carne, não vencemos o clímax, não substituímos nosso desejo por nenhum outro, pois nada diverso é ofertado.

A verdade é que as precoces indicações e honrarias, recebidas por O Discurso do Rei, ocorreram antes mesmo que qualquer um pudesse tocá-lo, e do efeito dominó decorrente, surge uma espécie de impossibilidade do toque. Corre-se o risco de que estejamos diante de um filme que ainda não foi, de fato, visto, e que talvez nunca o seja. Não por acaso, alguns têm sugerido ser possível assisti-lo com os olhos fechados, dada sua construção sonora ser um dos únicos recursos não estagnados; mas se for preciso render-se a tais recursos para fazer o filme viver, é melhor optar por um pornô. Pois um cinema sem olhar (disso até os pornôs sabem) é um cinema sem gozo.

Fernando Mendonça

Março de 2011


ISSN 2238-5290