Implacabilidade da forma

O maior mérito de O Discurso do Rei é a performance de Geofrey Rush.

Nada guia sua saída da convenção tão bem quanto.

De apetência cômica, contemplatividade trágica, sua personagem, entrando ainda num sistema simples de caricatura dado pela teatralidade, sela a relação na qual se tem de efetivar-se o espírito ficcional. Enquanto procura o rigor da voz, a flexibilidade que engendra causa esse delicioso apego a ficção.

Ora, se não tivéssemos consciência da história e tampouco assistido ao filme, a ideia de um Rei gago nos seria insólita e, só por isso (inevitavelmente), alvo de imagens da mais inflamada imaginação.

O pecado de O Discurso do Rei é a implacabilidade da forma escolhida para o filme.

Dela já tantos se utilizaram que, muitas vezes, tal forma estranha-se com os caracteres que tem de conduzir, pois sua identidade habituou-se a reger, dum ambiente longínquo, ou através duma urgência sem fricçoes a verossimilhança.

Ou seja: nós acompanhamos o desenvolvimento de tal filme com nossas lembranças, não com nossas intuições.

Quando se quer rígida na estrutura, a exposição artística duma história real, ao menos, situa sua disposição imaginativa na ficção do sentimento, pois, seja qual for sua messura, a memória é leviana enquanto espera de todas as situações o trigo racional. O sentimento pode ser suposto ainda quando o fato é posto.

Deste modo, resta a ficção do fato receber a imaginação disponível para os detalhes.

Se a voz do rei pudesse ter sido externada, talvez pudéssemos ter apreciado alguns detalhes…

Bruno Rafael

Março de 2011


ISSN 2238-5290