Vôo Noturno (2005, Wes Craven)

Vôo do medo

Depois de mais de três décadas realizando filmes essencialmente de horror, com um único desvio intitulado Música do Coração (Music of the Heart, 1999), Wes Craven aborda em Vôo Noturno o dilema do suspense enquanto elemento verbal. E pela luz do verbalismo de sua atmosfera a obra reivindica ser um filme de horror quando consciente de todos os seus artifícios, Craven revela ao espectador o motivo de sua existência: a do suspense que “teme” um tipo de horror que nasce à distância, que toma vida pela incerteza da morte daquela pessoa tão importante. Porque se em quase todos os filmes anteriores do cineasta era possível fisicamente presenciar o(s) assassino(s), em Vôo Noturno o que resta a Lisa Reisert (a sempre deslumbrante Rachel McAdams) é a dupla ameaça (duas possibilidades de morte, na verdade) que ela jamais viu ao mesmo tempo em que ela será a responsável por escolher quem será assassinado: seu pai ou um bilionário que está hospedado no hotel aonde ela é a gerente.

E é justamente em um vôo de volta para sua casa que Lisa se depara ainda no check-in com o envolvente Jackson Rippner (Cillian Murphy), que em tom de brincadeira diz que é um assassino – mas naquele momento Lisa jamais desconfiaria que aquela afirmação de brincadeira não tinha nada. Toda aquela relação com Lisa milimetricamente estudada por Jackson (homenagem explícita a Jack, o estripador) que consegue sem maiores dificuldades se sentar na poltrona ao lado dela. É a partir dessa enorme noção de uma ação física que raramente é ativada enquanto o avião está no ar (pois é tudo quase sempre verbal, dos motivos iniciais ao ápice do desespero) que Vôo Noturno trilha seu caminho até a prazerosa sensação da mixagem de gêneros: de um charmoso encontro entre dois desconhecidos, passeando pelos thrillers caracterizados durante todo o tempo em que o filme se passa no avião e culminando com o filme de ação (e porque não vingança) que finaliza sua narrativa.

Os filmes de Craven ao longo das décadas sempre foram exímias demonstrações da exasperação física e mental de seus protagonistas, porque basta lembrar-se dos pais que se deparam com sua única filha brutalmente violentada e assassinada em Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972) ou de uma pacata família que tem quase todos os membros da mesma exterminados por um grupo de assassinos bizarros em Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977), que será possível notificar que não há possibilidades aliviatórias para aqueles que estão dentro de um filme de horror craveniano: seu destino será a do confronto, a da própria morte que terá de ser derrotada, retardada, talvez, e em Vôo Noturno a dimensão de tortura de Lisa não é menor do que a dos protagonistas dos citados filmes setentistas: sua dor para além do eminente assassinato de seu pai vem também de um conflito de independência paterna que parece não findar, pois seu pai a trata como uma eterna garota que precisa ser protegida. Então até que esse conflito seja realmente acertado, a figura paterna, aos olhos de Lisa, não poderá desaparecer em quaisquer circunstâncias.

Essa proteção, aliás, aos olhos do espectador, parece ser desnecessária, porque Lisa é a típica mulher independente, ultra-consciente de suas qualidades e possibilidades. Mas o cinema de Wes Craven é um cinema de subversão, e quando pensamos que a obra teria um desfecho cinematograficamente previsível, Craven transforma a atmosfera verbalista em atmosfera de ação, e quando pensamos que o pai de Lisa seria carta fora do baralho dentro da narrativa, é ele quem impiedosamente trata de finalizar tudo aquilo que nos foi apresentado em oitenta minutos de projeção: a do suspense enquanto filme cabine (isso é, num único espaço, aqui no caso nas poltronas de um avião) que metamorfoseado a filme de ação não poderia ter outro final possível.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290