Música do Coração (1999, Wes Craven)

Margem social

Sendo o filme mais distinto de toda a sua extensa filmografia, Música do Coração revela um Wes Craven que talvez nunca mais vejamos: um diretor disposto a dirigir um filme que subverte todas as subversões possíveis de todos os seus outros filmes. Isso é, deixando de lado o horror, o slasher, o splatter ou qualquer outro “subgênero” a ele referido, Música do Coração segue o caminho do dramalhão hollywoodiano, não ofendendo ou maltratando ninguém, na verdade, politizando uma comunidade no Brooklyn em Nova Iorque – porque para o bem ou para o mal o filme fez barulho ao denunciar, já que é baseado em uma história verídica, o pouco caso que as escolas primárias americanas dão em relação ao “ensino artístico”.

Roberta Guaspari (Meryl Streep) se vê abandonada pelo marido e com dois filhos para cuidar. Desempregada, vai morar com a sua mãe. Ex-promessa nacional no violino, Roberta decide dar aula desse instrumento musical em uma escola no Brooklyn. O clássico caso da mulher branca que chega a uma escola predominantemente de negros e tenta encaixar um estilo de arte “branca” em uma comunidade que historicamente recusou tudo aquilo que não seja “marginalizado” – porque sejamos sinceros, o concerto de violino será sempre algo para elite, por mais que as barreiras sejam partidas. Aliás, é através da margem que o filme se propaga: porque mesmo Roberta, signo primário da elitização (afinal, loira, olhos claros, estudou violino em um renomado conservatório) proposta pelo filme, é em sua essência uma fragmentação da margem social, pois além de ser recusada pelo marido, ela anteriormente tinha sido recusada pelo conservatório para ser uma solista, já que era velha demais para aprender as técnicas necessárias. Também tinha sido refutada em outras escolas que não podiam aceitar uma “intrusa” dentro do seu habitat.

Flagrantemente subversivo quando o colocamos ao lado de todas as obras de Craven, Música do Coração fomenta essa idéia de revolta moral e cinematográfica porque aqui a marginalização alcançará o seu estado de turbulência mais elevado: finalmente possuirá o espaço principal daqueles que sempre colocaram os personagens do filme em isolamento, que historicamente os minimizaram. O Carnegie Hall é, então, a última parada dessa rebelião: todos os personagens, na mixagem de etnias, estarão ali ultradimensionados (porque se fosse o contrário o diretor do teatro não os teria comparado a mestres da música erudita, como Tchaikovsky), sociabilizados na beleza única do reconhecimento, não só artístico, mas principalmente humano.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290