Chiller – Um Frio Corpo sem Alma (1985, Wes Craven)

Por mais equivocado que seja o subtítulo em português para esta produção televisiva, há no epíteto Um Frio Corpo sem Alma, o reflexo de um dos maiores equívocos presentes em Chiller, filme que se constrói justamente pelo equívoco para alcançar um referencial mínimo de ilusão. Na ausência de alma identificada no corpo de um homem congelado por 10 anos, temos uma potencial subversão ao universo de Wes Craven, diretor que se limita aqui, pelo baixo orçamento, a sugerir um medo que não pode ultrapassar o núcleo narrativo, que pouco se atreve a tocar a imagem.

Antes de tudo, para aceitarmos a premissa de que o corpo desperto perdeu sua alma, precisaríamos considerar qual o parâmetro de alma deve ser tomado, pelo menos dentro do cinema de Craven, que desde o início coloca-se com uma desconfiança extrema a este elemento dito humano. Não é possível ignorar que a interpretação sobre a perda da alma parte da representação que o filme dá à esfera religiosa, pelo personagem de Paul Sorvino, um reverendo que representa a voz de Deus na terra. Tal leitura advém da maneira como o corpo desperto (Michael Back) demonstra uma total perda de referências a códigos morais e éticos que o impeçam de ser violento com o próximo, em benefício próprio, capaz inclusive de assassinar friamente aqueles que se colocam no caminho de suas ambições pessoais. Repetimos: a perda da alma é uma possibilidade que tange à perspectiva do elemento divino, este sim ausente – ausência que precisa ser melhor observada, pois não plena – do(s) filme(s) de Craven; não ficamos convencidos com a rasteira explicação religiosa para o horror que se segue, principalmente se considerada a carreira pregressa do diretor, onde dificilmente vemos personas isentas deste instinto exacerbado, tão humano e monstruoso ao mesmo tempo. Se assim o fosse, todo o trabalho de Craven poderia ser observado como um frio cinema sem alma.

Mas há alma em Chiller. Uma alma corroída pelo tempo perdido, pela duração roubada de suas emoções. Uma alma que não exclui o caráter perverso da humanidade, que desconhece qualquer tipo de reconciliação com o mundo e com sua própria identidade. Uma alma que não se satisfaz com a limitação do corpo e a finitude da vida.

É nos anos 80 que Craven se filiará a este cinema questionador do corpo, em filmes que se valem da fantasia para levantar problemas da ciência de seu tempo. E na mesma medida em que seus filmes duvidam da fé, também não há certeza alguma no âmbito científico, lugar onde só se permite uma desvairada experimentação capaz de aflorar a crueldade dos homens. Deste cinema da desconfiança, Craven extrai uma série de variações do mesmo tema encontrado em Chiller (em filmes como Swamp Thing e Deadly Friend), ecoando os medos de outros cinemas (Cronenberg, Verhoeven, Cameron) que igualmente não se resignaram aos rumos que o corpo seguiu em sua destituição do humano. Aqui, a desconfiança só se completa quando experimentada contra si, assim como o horror só se estabelece quando o homem é confrontado consigo próprio.

Diante da precariedade de produção enfrentada, Chiller ainda termina por ser uma desconfiança contra o próprio código audiovisual, não se rendendo à objetividade do meio televisivo e angariando, com isso, efeitos que tanto intensificam quanto fragilizam esta representação em tom menor de sua fábula prometéica. Desde a abertura do filme fica bastante claro que seria impossível imaginá-lo sob outra forma de construção senão aquela que se baseia única e rigorosamente nos falsos contornos que uma imagem pode gerar. O falso olhar pedido pelo filme faz com que nós desconfiemos dele e de tudo que ele representa, seja dentro do universo maior de Craven, seja como apenas mais um simples produto do novo mercado exigido pela TV; sob qualquer ângulo, Chiller confirma a exaustividade do olhar espectador. É falsa a subjetiva que abre o filme (não há corpo que veja ou dialogue com o espaço filmado), é falso o referencial a outros cinemas – vide o plágio de alguns ângulos hitchcockianos (ainda que a temática materna de Hitchcock esteja presente, nesta mãe que controla o momento de viver e de morrer em seu filho), assim como é falsa a violência, a ameaça da violência e a concretização da violência nos minutos finais do filme.

Em diversos momentos de Chiller, como em vários filmes de Craven, ecoa uma ambição de Dr. Frankenstein, um dos mais cruelmente românticos mitos da Modernidade. Neste reflexo, Chiller sobrevive exatamente como a criatura, numa vida falsa, arrependida, mas catártica dentro do que motiva seu criador. Confirma-se aqui uma das constantes nucleares ao imaginário de Wes Craven: a procura por uma alma no homem, ainda que torpe, caída, maligna. À sua maneira, Craven permanece como um dos últimos românticos que o cinema conheceu.

Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290