Aniversário Macabro (1972, Wes Craven)

Qualquer espectador que duvide do potencial do cinema de Wes Craven, por ter se deparado com uma ou duas obras inconsistentes, precisa saber que, para além de outros oásis, a década de 70 sempre será um lugar seguro. Seu primeiro trabalho na direção, Aniversário Macabro, após uma breve experiência como produtor-associado em Together (1971), do futuro diretor de Sexta-feira 13 (1980), Sean Cunningham, que aqui faz as honras da produção, se alinha aos filmes cujo percurso é conduzido por um tato quase primitivo de iniciante, uma documentação da busca de estilo, prosseguindo na linha do erro e do acerto. Pela sorte ou competência, mais acertos. Ainda durante os créditos, escutamos um folk psicodélico que se repete em outros momentos, ‘And the road leads to nowhere /And the castle stays the same / And the father tells the mother / Wait for the rain’, enquanto uma jovem toma banho e sua nudez é escondida / revelada pela distorção do box (ver imagem). Trata-se provavelmente da única cena cujo belo desliza minimamente puro sem intervenções grotescas ou escatológicas. Não há ali um suspeito atrás da porta ou um medo latente incitado pela câmera, ela está se banhando para sair e então entrarmos na mais velha preocupação dos pais: será que suas doces virgens filhas estão mesmo onde vocês acreditam que elas estão? Ou quem sabe: o que suas inocentes e pálidas filhas estão fazendo enquanto vocês dormem? Craven responde brutalmente: estão bebendo, procurando drogas, encontrando delinqüentes, sendo encurraladas em apartamentos suburbanos, estupradas em florestas, torturadas no mato, espancadas, humilhadas e sacrificadas. Diferente tanto da escandalosa estetização e estilização dos filmes-franquias de terror contemporâneos, diferente do requinte poético e melancólico de A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman, que supostamente serviu de inspiração, Aniversário Macabro coleciona uma série de imagens cruas e secas, longe de qualquer tentativa de amenização, com atuações fraquíssimas que pouco fazem diferença, se assemelhando, especialmente na primeira metade, a um registro-flagrante (ou auto-registro) de um ritual macabro onde equipe técnica, atores e personagens compartilham de uma intenção. Não por acaso o cartaz do filme anunciava que quando a angústia vencesse o espectador, era preciso lembrar: “é apenas um filme! É apenas um filme!”. Hoje poderíamos confundir com alguma das inúmeras matérias na TV.

A completa imersão nessa atmosfera amadora colabora no aspecto snuff movie de Aniversário Macabro, fortalecendo não apenas uma antologia da violência e do sadismo, mas uma posição sarcástica diante dos desejos da geração paz e amor. Wes Craven, aos 33 anos, nada mais faz que jogar sangue e arrancar os órgãos da juventude hippie, manda-os mijar nas calças com prazer no rosto, rasgando em mil pedaços todo sonho pueril, dando um basta no devaneio da imaginação no poder. Não mais a celebração, o amor livre, flores e nudez espontânea dos Stones no Hyde Park (1969), mas a crueldade, jaquetas, preconceito, assassinato, nudez forçada e o caos de Gimme Shelter (1970). O filme se afunda ironicamente no clima de ressaca geracional. Na segunda metade, após matarem duas amigas, os delinqüentes pedem abrigo justamente na casa – a última à esquerda – dos pais de uma delas, que logo descobrem a filha morta no lago e iniciam o plano de vingança. Essa estrutura de tortura psicopata seguida de vingança faz o filme dialogar, para além da música Midnight Rambler (vídeo aqui) e de várias produções italianas, com pelo menos outros dois poderosos registros: Sob o Domínio do Medo (1971), de Sam Peckinpah e A Vingança de Jennifer (1978), de Meir Zarchi. Todos brincam com a idéia de família pacata americana, que, quando colocada numa situação limite, age da mesma forma – ou pior – que os sádicos pervertidos: em Aniversário Macabro vemos, sem sofisticação, a mamãe boazinha fazendo sexo oral e castrando o fugitivo com os dentes enquanto o papai encurrala o chefe da gangue com uma serra elétrica. Nós, espectadores, trincamos os dentes: essa vingança também nos pertence. Por fim, um dos pontos de maior estranheza do filme se funda na alternância entre a violência já comentada e um humor deslocado, focado nos policiais bobos (eufemismo para otários, palermas, etc) extremamente caricatos. Não que seja uma tentativa de desviar da tensão e instaurar um clima leve, mas uma intencional quebra de qualquer resquício de auto-importância ou auto-indulgência. Seja como for, o menos importante do ‘paracinema’ se finca no questionamento se a risada era ou não intencional, se alcançou ou não os risos da platéia, Craven mais tarde se especializaria justamente nessa ambivalência. Em Aniversário Macabro estava só engatinhando. No final das contas, o filme não tem graça alguma.

Rodrigo Almeida


ISSN 2238-5290