Sobrenome: subversão ou o romântico do horror

Mais do que simplesmente conduzir filmes até o ponto crucial em que eles se tornam irrefutavelmente (de)generativos, Wes Craven tentou ampliar a própria discussão do filme de gênero enquanto possibilidade romantizante, pois seus filmes para além dos reconhecimentos sensoriais e imagéticos do horror emergido parecem não querer reconhecer as limitações tangíveis e dilata-se para outros universos, que se numa primeira olhadela parecem refutá-los, rapidamente os envolvem em seus braços – ou melhor, em suas garras. Condicionadamente cinematográfico e então aceitado por esses outros universos (imensamente exploráveis e instigantes), os filmes de Craven desenvolvem um signo incomum dentro de filmes qualificados por um gênero de horror indelével, a do signo que talvez seja o mais universal de todos: o amor.

Sintetizados nessa escala universal, os filmes do realizador norte-americano assumem também a faceta do não retorno, daquilo que já não pode ter outro caminho possível que não seja o confronto, a finalização do ato, da história em si como cataclismo narrativo da violência genética dos E.U.A, do mundo. Violência gratuita? Em certos momentos sim, em outros ela surge como artefato vingativo que só será saciado através do sangue abundantemente jorrado pelo corpo alheio – porque nos filmes de Craven os personagens só possuirão a chance de vingança se sangrarem, se puderem ser submetidos a uma espécie de expiação cinematográfica. E logo em Aniversário Macabro (The Last House on the Left, 1972), seu primeiro longa-metragem, a violência gratuita explode através de um grupo de assassinos que estupram e matam a filha de um casal aparentemente pacífico do interior dos E.U.A. Descobrindo que aquele foi o grupo responsável pelo brutal assassinato da filha, o até então pacato casal não reluta em buscar vingança. O exploitation é então outro caminho de execução: a da paradoxal forma que aquele “antigo” cinema de horror tinha em maquilar a violência ali jorrada com pênis, seios ou vaginas, ao mesmo tempo em que amplificava a vérité daqueles momentos cruciais (porque o corpóreo desespero das vitimas é escancarado). Craven aqui já exibia a sua tese que em um ato vingativo o retorno é impossível e implausível – porque é necessário finalizar aquilo que foi iniciado.

Em Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977) novamente um grupo de pessoas dementes (mas agora social e moralmente marginalizadas) assassinam vários integrantes de uma mesma família que tinha ido ao deserto em busca de uma fortuna perdida. Mas ao contrário de Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos antes de ser um exploitation/vingança é uma violenta projeção do fragmento marginalizado de uma sociedade (local, universal) que recusa tipos anômalos, que literalmente (pelo menos no filme) os isolam não em um cenário limboso, mas desértico. Outra diferença decisiva entre ambos os filmes é que se em Aniversário Macabro tínhamos um grupo de assassinos “andante” e invasor, em Quadrilha de Sádicos o grupo maquiavélico está em seu habitat natural, mas a perversidade continua intacta. São apesar de tudo, filmes que de certo modo se complementam, se reduzem e se ampliam numa mesma esfera de percepção que muito mais do que no desnecessário Quadrilha de Sádicos 2 (The Hills Have Eyes Part II), continuação que nunca deveria ter ganhado vida, Quadrilha de Sádicos e Aniversário Macabro encontrarão mais similaridades (seja na falta de requinte, seja no pesadelo filmado, seja no vigor que parece querer alcançar as estrelas) em A Vingança de Jennifer (I Spit on Your Grave ou The Day of Woman, 1978), de Meir Zarchi, pois são filmes que se rebelam contra um paradigma, contra a justiça que ganha vida através da lei. Nesses três filmes a única justiça que importa é a justiça do sangue, da violência represaliada pela própria violência.

Stranger in Our House (1978) foi o primeiro filme que Craven fez diretamente para a televisão e as mudanças na condução foram perceptíveis. O maior desafio de todos foi adaptar o estilo cinematográfico para o estilo televisivo – e isso só foi possível porque, ao contrário de seus filmes anteriores em que o cineasta também foi o responsável pelo roteiro e edição, em seu debut para TV, Craven, talvez estranhando esse novo mundo, preferiu “somente” (o que já é muita coisa) se dedicar à direção. Seja pela velocidade narrativa com que os fatos acontecem (nos primeiros segundos a atenção do espectador já é acionada por um acidente automobilístico), seja pelo delicioso confronto que ganha vida entre a protagonista e antagonista, seja pelo horror usurpado ali inserido, tudo isso faz de Stranger um filme irresistível, pois exibi com imenso orgulho a atmosfera de filme de gênero que inegavelmente é. Já O Monstro do Pântano (Swamp Thing, 1982) se encaixa na mesma fileira de Quadrilha de Sádicos 2: a do filme que parece ter sido realizado somente por questões financeiras.

Retornando às produções televisivas, Craven realiza Convite para o Inferno (Invitation to Hell, 1984), que assim como Stranger in Our House sugere uma retomada de consciência, por parte de seus personagens, daquele símbolo que nunca poderá ser substituído: a família. Ambos os filmes são edificados quando os protagonistas detectam as ameaças iminentes da possível substituição de algum organismo do universo familiar, e para impedir essas ameaças os personagens não temem, sequer, em irem ao inferno. Com A Maldição de Samantha (Deadly Friend, 1986), o cineasta norte-americano desmonta toda paixão possível de seus protagonistas pela imagem do horror ressuscitado – literalmente. Em A Maldição dos Mortos Vivos (The Serpent and the Rainbow, 1988) Craven entrega um filme sobre zumbis dos mais razoáveis possíveis.

Em A Hora do Pesadelo (Nightmare on Elm Street, 1984) o cineasta adentra no subconsciente e conduz com extrema habilidade a possibilidade do onírico que, recusando apenas em permanecer como momento abstrato, emerge a realidade para buscar a sua vingança. Em um horizonte completamente distinto e mais pobre, Christopher Nolan com o seu A Origem (Inception, 2010) cria uma inserção ao sonho muito menos verossímil (não à luz da técnica ou dos valores de produção). E a maior história de amor que Craven já dirigiu (e para o bem ou para o mal, quase todos os filmes do diretor estarão ancorados nesse signo amoroso) emerge na beleza de Shocker – 100 Mil Volts de Terror (Shocker, 1989), que é alimentado (tanto ou mais do que pelas brutalidades das cenas do slasher film que é) por certa noção de amor que trespassará a própria dimensão da vida e da morte. Já com As Criaturas Atrás das Paredes (The People Under the Stairs, 1991) o realizador volta à questão da marginalização: um casal demente começa a prender atrás das paredes de sua casa garotos que não se encaixam no perfeito perfil que eles estão procurando, ou seja, se não é perfeito (e não pode ser negro de maneira alguma) será excluído não só da sociedade, como da própria vida. Subvertendo todo esse contexto elitista o herói do filme é um garoto negro cheio de imperfeições aos olhos do mundo.

Em 1996 Craven faz o filme mais lucrativo de sua carreira, Pânico (Scream) que nada mais é do que o retrato de uma juventude americana alienada pelo escapismo da vida e do próprio horror que nunca esteve tão presente – a cena inicial que dura para lá dos quinze minutos é absolutamente espetacular. Um ano depois o cineasta realiza o bom Pânico 2 (Scream 2) que em sua essência não é nada além do que uma atualização do original. Com Música do Coração (Music of the Heart, 1999) o cineasta realiza um dramalhão que subverte todas as subversões de seus filmes de horror simplesmente por ser o que é. Com Pânico 3 (Scream 3, 2000) Craven mostra ao mundo que a fórmula do ‘who-killed-the-guys’ está defasada e não oferece nada mais de interessante em sua construção – e o vindouro Pânico 4 (Scream 4, 2011) terá a dificílima missão de fazer com que a série seja novamente interessante depois de quase quinze anos. Do desprezível Amaldiçoados (Cursed, 2005) aos bem bons Vôo Noturno (Red Eye, 2005) e A Sétima Alma (My Soul to Take, 2010), o cinema de Wes Craven ainda demonstra que é sim capaz de entregar filmes que, se não possuem o mesmo vigor e brilhantismo de duas ou três décadas atrás, ainda conseguem representar (e proliferar) o gênero de horror no cinema norte-americano.

Em seus filmes, o cineasta em maior ou em menor escala parece sempre explorar a questão do amor enquanto signo sagrado: seja na perda da filha querida em Aniversário Macabro; de quase toda uma família em Quadrilha de Sádicos; da mulher que tanto amava em Shocker ou da possibilidade da perda do pai em Vôo Noturno, seus personagens estarão sempre dispostos a enfrentar e eliminar os responsáveis pelos crimes ou pelas ameaças. Um cinema corpóreo, vigoroso, que não reluta em expor sua ideologia (ora demente e perversa, ora quase ingênua) enquanto conseqüência cinematográfica. E de todos os filmes aquele que possui o final que mais bem pode sintetizar esse vigor, esse não temor em ser violento é o de Quadrilha de Sádicos aonde um dos sobreviventes simplesmente continua a esfolar o assassino mesmo esse já estando morto – e o filme assim termina, banhado a sangue, a lágrimas, a vingança.

Pelo borrar da violência genética (e por assim ser, incurável) o cinema de Craven unifica o sentido do ultra amor que gera a violência e aonde muitos tratam as duas pirâmides como uma cisão improvável de ser fundida, Craven, unificando-as, as amplificam como fragmentos de um cinema de horror imortal – talvez por isso seus “vilões” sempre insistem em não morrer ao fim dos filmes (Stranger in Our House, A Hora do Pesadelo, a trilogia Pânico). Uma imortalidade essencialmente cinematográfica.

Ricardo Lessa Filho


ISSN 2238-5290