O silenciar da alma

Agora vou me deitar pra dormir,

Peço ao Senhor para minha alma guardar;

Se eu morrer antes de acordar,

Peço ao Senhor para minha alma levar.

Se eu tivesse aprendido esta oração na infância, certamente a teria intercedido, senão todas as noites, pelo menos naquelas em que se seguiam a uma sessão de algum filme de Wes Craven. Talvez tivesse resolvido a noite não dormida quando, ainda criança, conheci Freddy Krueger numa pequena TV P&B em meu quarto, ou tivesse espantado o trauma que ganhei de telefones quando, anos depois, tive minha adolescência marcada pelo fenômeno Pânico. Uma pena, só descubro a oração hoje, e ironicamente, através do próprio Craven. É a oração feita pela criança em Wes Craven’s New Nightmare, a mesma que os monstruosos pais de The People Under The Stairs recitam antes de dormir, e que ainda hoje, motiva o diretor a continuar filmando, dando título a seu recente My Soult to Take (é a oração que abre o filme: I pray the Lord my soult to take…). Da desilusão à parte, aprender a orar agora, ao aprofundar-me no cinema de Craven, compreendo que não é somente Deus quem espera encontrar em mim um coração como de criança.

Experimentar a quase totalidade do trabalho de Wes Craven hoje, numa fase da vida em que já não há tanto medo naquele momento da noite quando as luzes se apagam e o sono não chega, confirma em mim a impressão de que algumas coisas devem ser vividas e revividas sempre, pois não importa o conhecimento prévio envolvido, há medos que não podem ser vencidos, por mais que se repitam ou avisem com antecedência sua presença. Assistir um filme, sob tantos aspectos, consiste em rever o já visto, em procurar a lembrança perdida no tempo, e o cinema de Craven, antes de tudo, alimenta-se desta auto-conscientização.

É a primeira vez que, no Filmologia, lidamos com um diretor tão nosso, tão do mundo, tão impregnado no inconsciente de uma geração que não precisa conhecer o cinema para pensar e dizer que o ama e o decifra, sem que importem as conseqüências disso. Tantas figuras sonhadas por Craven são identificáveis no senso comum gerado pelo cinema de terror que o desafio surgido vem contrapor tudo que precisamos fazer nas edições anteriores, onde tínhamos que (des)cobrir obras de diretores, muitas vezes pela primeira vez, para poder apreciá-los em sua totalidade; aqui, a oposição vem pela necessidade de (re)cobrir uma filmografia, de ocultá-la na memória para tentar, em novidade, conhecê-la de fato. De certa forma, talvez seja isto que Craven venha fazendo com os mundos que retrata desde o início de sua carreira.

Conhecer o mundo e o homem que nele habita é o motivo da representação do medo no cinema de Craven. Poucos diretores conseguiram afirmar tão claramente suas razões, já em sua obra de estréia, como ele o faria nos idos do maldito ano de 1972, ano dos mais violentos que o cinematógrafo concebeu, ano-ruptura, nos valores, na ética e até mesmo na técnica de sua linguagem. Desde então, o que este diretor tem realizado, consciente de que a realização cinematográfica deve dar conta do aspecto profissional em jogo, é instaurar uma desconfiança contra os sentidos e os signos, contra aquilo que nos aprisiona a um conhecimento ignorante, adestrado, conformado com as aparências e as formas mais rapidamente apreendidas do mundo. Não existe lei (há sempre uma caricaturização nos policiais ou representantes da ordem em seus filmes), fé (é Freddy quem diz serem suas unhas o único Deus possível dentro do pesadelo) ou saber (do científico sempre emerge o lado mais abominável do humano) que condicionem os personagens/situações de Craven a estados pacíficos de existência; é do caos e pelo caos que os medos são expostos, combatidos e temporariamente superados, pois toda superação em Craven exige um novo estado de crueldade.

À oração repetida exaustivamente em seus filmes soma-se esta constante procura pelo que movimenta o homem a lutar por sua sobrevivência, acima de qualquer coisa, por um instinto que geralmente se revela maior que o Outro, que ultrapassa sua condição de estar no mundo. Da alma desejada e resguardada por Craven – a mesma que do latim (anima) origina o significado do animal primário (animalia) –, resiste este cinema adormecido no pior tipo de sono, aquele que temos minutos antes de despertar, repleto de imagens e pulsações, dentro de um estado limite para a vida. Como a ilusão da segurança não se define pelo abrir ou fechar de olhos, ao cinema de Craven importa mais do que aquilo que vemos decidir o que não deve ser visto, o que deve calar. Silenciemos então.


Fernando Mendonça


ISSN 2238-5290