The Evolution of Snuff (1978, Wes Craven, Andrzej Kostenko & Karl Martine)

Craven realizou The evolution of snuff na Alemanha juntamente com Andrzej Kostenko e Karl Martine em 1978. Por um lado, o filme, visto hoje, pode representar um fascínio evidente para os que se interessam pelo filme pornô da década de 70. O que temos aqui é um “documentário” (as aspas são porque não se sabe o que foi encenado especificamente para o filme e o que foi usado como found footage das sobras de produções eróticas da década) sobre a indústria pornô da época – o próprio Martine era diretor de soft porns. Portanto, vemos de ângulos inusitados aquelas atrizes de cabelos longos e lisos, aqueles homens de enormes óculos quadrados, calça boca de sino e bigode. Vemos um bizarro behind the scenes, e um diretor empenhado em criar cenas no meio das dificuldades de uma moralidade complicada e de um universo de trabalho deprimente cheio de pessoas que gostariam de trabalhar com cinema mas estão precisando desesperadamente de dinheiro. Uma sequencia como a da seleção do elenco, onde duzentas garotas fazem testes para um dos pornôs cujas filmagens o documentário mostra, com a estética “realista” de cortes sem causalidade e o flagra de ações banais como fumar um cigarro olhando para o vazio, seria um exemplo interessante de como The evolution of snuff possui esses portais que transportam o espectador no tempo.

Por outro lado, porém, o filme é o alavancador de uma operação esteticamente bem mais interessante. Pôr a indústria pornô no centro mesmo da cena para relacioná-la com a visão, em primeiro lugar, de uma sociedade hipócrita, onde desejo sexual e desigualdade econômica são coisas que possuem uma ligação sombria e sobre a qual todos evitam falar. Em segundo lugar, com a visão de um mundo, em última análise, estranho, esquisito e sem sentido, que, naquela fotografia desbotada típica dos anos 70, parece poder mostrar rapidamente alguns traços do seu rosto. Aquelas imagens documentais a que nos referimos acima são montadas a partir de uma narrativa que tem como mote a morte misteriosa de uma jovem que decidiu entrar na indústria pornô para tentar continuar os estudos. Ouvimos a voz em off do narrador: “há a morte do corpo, mas há também a morte da alma – que é quando não se está mais apto a enxergar qualquer sentido no mundo”. Depois dessa frase, vemos travellings da Alemanha da época, que então nos parece sombria, desbotada, carente de beleza ou significação. Os travellings lembram o cineasta americano contemporâneo Todd Haynes – que também fez pseudos-documentários sobre os anos 70 (com a mesma fotografia desbotada – Superstar, the Karen Carpenter Story e um segmento de seu longa Poison) para criar conexões de intenso lastro político. É vendo esse mundo assustador e sombrio que nos lembramos de Craven, o “mestre do terror”. A indústria pornô não é simplesmente vista: é vista a partir da relação com uma entrevista inicial com Polanski falando sobre a degradação da humanidade; a menção ao snuff movie (filme onde supostamente pessoas são mortas de verdade) e, para fechar, uma cena de Aniversário Macabro.

André Antônio


ISSN 2238-5290