O Monstro do Pântano (1982, Wes Craven)

Nunca há muito pouco para se falar sobre um filme, mas poderíamos poupar um bom tempo se, para resumir, localizássemos este O monstro do pântano dentro do caminho tortuoso e difícil que o cinema percorreu ao tentar adaptar histórias em quadrinhos. O velho e datado problema do “funciona nas páginas, mas não na tela grande” pode ser exemplificado perfeitamente com este filme de Craven – atípico considerando sua filmografia como um todo. O monstro do título parece uma grande homenagem às fantasias dos alienígenas de Power Rangers e ele é a pedra angular do constrangimento gerado pela combinação da tentativa de ser verossímil com elementos como um pântano ultra-selvagem filmado o tempo inteiro com luz de estúdio ou um vilão muito rico, que cita Nietzsche (como num reprocessamento bizarro do filósofo pela cultura de massa), tem um plano para dominar o mundo e é unilateralmente afetado demais. Por algum motivo, historicamente o cinema resistiu (bem mais que a televisão) a esse tipo de universo, os corpos dos atores perfeitamente deslocados sendo filmados dentro dele.

Há, claro, exceções esteticamente inacreditáveis dessa “diegese nerd” no cinema: para citar dois grandes filmes, Christine, de Carpenter e Carrie, de De Palma. Ao que tudo indica, porém, a trilha tortuosa e pantanosa acabou e os super-heróis, insolitamente nesta época multimídia, estão salvando a indústria cinematográfica ao terem encontrado finalmente uma sensibilidade dentro do contemporâneo. Podemos pensar, portanto, que Craven errou de ano ou de década ao dirigir O monstro do pântano, mas isso nos faz refletir sobre as próprias escolhas do diretor através da comparação com a HQ da DC Comics na qual o filme é baseado. Enquanto Craven se agarrou (com força demasiada, pode-se dizer) às regras e convenções do gênero a que se propôs filmar (o roteiro também é dele), Alan Moore – um verdadeiro esteta da decay nas histórias em quadrinhos – estava revolucionando Swap Thing por dentro, transformando mais uma história qualquer da indústria cultural numa verdadeira e melancólica reflexão sobre ser um outro. Da genialidade de Moore e dos melhores filmes de Craven, só os planos da criatura de O monstro do pântano ao longe, nas árvores, lançando um grito gutural e distante parecem uma vaga lembrança.

André Antônio


ISSN 2238-5290