A Hora do Pesadelo (1984, Wes Craven)

“God, I could be bounded in a nutshell, and count myself a king of infinite space—were it not that I have bad dreams”

Fred Krueger rasga uma lona com as unhas para entrar no ambiente contíguo; faz uma parede sólida ficar gelatinosa para invadir um quarto; sai da água da banheira enquanto Nancy cochila no banho; rasga o lençol para sair da cama; pula de dentro do espelho. Fred está sempre tentando entrar. Passar do mundo dos sonhos para a realidade? Toda a ousadia de A hora do pesadelo na verdade advém do fato de o filme ir muito além desse esqueminha fácil e que resume a ideia geral que normalmente se tem de “Freddy” (a mudança sutil do nome veio com as – em sua maioria atrozes – sequencias, que tentaram dar a Fred um ar mais cômico, prevendo o que se chama hoje de “terrir”: filmes como A noiva de Chucky ou o próprio Pânico).

De início uma coisa parece clara: Fred seria uma espécie de figuração de tudo o que recalcamos – sobretudo de tudo o que a pacata classe média alta norte-americana, ou um pastiche dela (da qual Nancy e seus amigos do high school e belas casas com jardim na Rua Elm fazem parte) recalca. Por isso Fred está sempre querendo entrar: ele é aquilo que tentamos esconder, ou esquecer, para seguir com as regras e pressupostos do cotidiano com tranquilidade. Fred é, sobretudo, o recalque do outro de classe (que para Fredric Jameson é a própria definição do gótico: tenho o privilégio de estar dentro mas há os desconhecidos assustadores que querem entrar). Lembremos do segundo sonho de Tina, que resultará em sua morte. Ela deixa a cama (já é um sonho embora não saiba), sai, significativamente, pelas portas dos fundos, seu belo quintal está escuro. Ela caminha e sai por uma cerca e eis que se encontra em uma rua suja, feia, esburacada, com latas enormes de lixo, pichações e cercas quebradas de casas pobres. Com essa espécie de pastiche do submundo, o visual e o espaço são totalmente reconfigurados – e o são o tempo inteiro no filme, ousadia notável observando-se seu lugar na indústria do entretenimento. De maneira mais geral, Fred pode significar o fantasma recalcado – ou seja, o negativo – do paradigma do belo, do juvenil e do agradável. É o recalque também dos pecados do passado: ele foi incinerado pelos pais da Rua Elm, que buscavam vingança pelas suas crianças assassinadas (impossível os olhos não se arregalarem quando, em uma das sequencias – acho que a sexta – a cena fatídica, quase primordial, é finalmente mostrada e não mais referida); ele nasceu a partir do estupro de uma freira, Amanda Krueger, por uma centena de loucos num sanatório (só sabemos disso no ótimo A hora do pesadelo 3: guerreiros dos sonhos).

No entanto, o filme não se resume a mostrar que por trás da superfície rosa e clara daquela abastada vizinhança modorrenta há um escuro monstro escondido. Ele vai além disso. Os signos do medo de classe estão todos lá, mas há também outros: signos que parecem recolhidos das obras surrealistas (cabras, folhas secas voando num corredor fechado, a quebra da lógica gravitacional e geográfica, a repetição perturbadora de alguns elementos), signos religiosos (crucifixos, enterros católicos, rezas infantis antes de dormir) e aqueles signos gerais e imemoriais das lendas ou contos de fadas: Fred tem o rosto e a pele de um demônio barroco, seu lugar preferido é uma sala de caldeira infernal (o lugar onde morreu mas, como o porão de Norman Bates, o locus do inconsciente freudiano por excelência). Esse mix de signos revela menos a ingenuidade estética de um filme para as massas e mais sua principal qualidade. Primeira pista: Tina clama “Meu Deus” e Fred, em close-up assustador: “This is god”. Segunda pista: na cena da aula de literatura (que é belamente homenageada em Halloween H20), a professora ensina Shakespeare e fala que Hamlet mostra como, essencialmente, a própria vida, o próprio mundo tem algo de podre. Em seguida, um aluno cita (o cadáver de Tina na porta, chamando Nancy de dentro do saco de medicina legal): “Deus, eu viveria dentro de uma nós e ainda assim me consideraria rei do espaço infinito – se não fossem esses maus sonhos”. Na verdade, Fred não está escondido em outra dimensão e tenta entrar na nossa. Ele sempre esteve aqui, como no plano em que um aparentemente banal detalhe do espaço apinhado da caldeira se revela a mão cheia de garras de Fred quando ele se mexe. Ele sempre esteve aqui – e a questão é se estamos disposto ou não a vê-lo (será que temos escolha?).

O filme tem condições de ensejar essa visão de mundo. Craven, que estudou literatura, escolhe a seguinte epígrafe para A hora do pesadelo 3 – do qual foi roteirista: “Sono, estas pequenas fatias de morte. Como eu as odeio! (Edgar Allan Poe)”. Tal visão de mundo tem como condição necessária outra, que o magnífico final do filme (semelhante à fantasmagórica porta aberta que Sidney encara no final aparentemente feliz de Pânico 3) reforça: tudo não passa na verdade de um sonho dentro de um sonho (leitmotiv de outro filme, Piquenique na montanha misteriosa). Aquele medo de classe que emerge no filme não é apagado com isso, mas visto, a partir da rebeldia crescente desses jovens que foram criados por assassinos e alcoólatras (a mãe de Nancy), de uma maneira infinitamente mais profunda. O desnecessário e recente (2010) remake, na medida em que retira toda a ousadia do filme original transformando Fred num pedófilo entediante de reportagem do Fantástico, não merece, nesse sentido, nenhuma atenção. Ora, o fato de Craven estar envolvido com os três melhores filmes da série (todos com Heather Langenkamp) – este primeiro, o terceiro e o sétimo (O novo pesadelo) – parece prova necessária de sua verdadeira capacidade como artista. Antes de Pânico ele fez esta notável trilogia – que, além de contar com todo o charme da cultura de massa e da mídia, não deve nada a nenhum surrealismo, de André Breton a David Lynch.


André Antônio


ISSN 2238-5290